Eu estava querendo falar disso faz um tempo. Com a morte do Michael Jackson, houve uma enxurrada de mensagens no Twitter de gente indignada com as homenagens e com a comoção em torno da morte do Rei do Pop, sempre citando o processo por abuso sexual, do qual ele foi inocentado. Depois de muito responder a alguns mais racionais esperar pra dar umas porradas pessoalmente nos mais revoltados, resolvi trazer à tona una discussão que há muito me queima a mufa – e que me afeta diretamente: a distinção entre o artista e o homem.

Como escritor, além de sofrer muito com isso, eu aprendi a fazer a distinção. Muitas destas pessoas que execraram o Michael Jackson devem ser fãs de Wagner, John Lennon (eu sou um deles) ou até mesmo do Simonal, que tá na moda. Pois bem, Wagner era um anti-semita de marca maior, tendo publicado vários ensaios neste sentido.  John Lennon era machista, viciado em drogas e espancava regularmente a(s) esposa(s) e os filhos. E o Simonal mantinha contatos promíscuos com o DOPS durante a repressão, e tinha fama de mandar bater nas pessoas e de ser muito violento com suas mulheres. São casos parecidos: homens que não são exemplos muito bons, mas artistas indiscutivelmente talentosos e dignos de admiração.

Há outros casos igualmente polêmicos que também serviriam de exemplo. Falhas de caráter influenciam na importância e na qualidade artística das pessoas? Se sim, quem deveria ser um artista. Um ser humano perfeito, imagino. Cazuza e Renato Russo eram viciados em drogas e o Cazuza até traficava segundo algumas pessoas, e toda essa gente que fala mal do Michael Jackson agora deve adorar Legião e Cazuza. O que nos interessa a vida pessoal de um artista? Até que ponto devemos nos influenciar pela pessoa por trás do artista. Até que ponto meu caráter faz você, amigo, deixar de vir aqui ler meu blogue? A que lhe interessa se eu torço pelo Fluminense, falo preto em vez de negro, acho a Globo uma empresa FODA ou acho uma babaquice protestinhos de twitter e de playboy de ipanema que acha que vai mudar o mundo de suas coberturas? NADA.

A não ser que você queira me namorar ou ser meu amigo (a), minhas qualidades e defeitos não fazem a menor diferença. Você vem aqui ler meus textos, e não se beneficiar com a minha imensa benevolência ou compartilhar dos meus ideais. Eu jamais ia querer o Michael, o Lennon, o Wagner ou o Simonal como genros, mas como artistas não há o que discutir. A vida pessoal de um artista não deve ser jamais comparada ou ligada de alguma forma à sua obra. Isso explica o fato de até hoje nenhuma sogra ter gostado de mim até hoje. Bom, se pelo menos elas comprarem meu livro, é uma troca justa…