Bom, eu já sou odiado por publicitários, blogueiros e leitores, agora serei odiado pelos jornalistas. Quer dizer, por alguns deles. Como muitos de vocês devem saber, hoje pela manhã o STF derrubou a exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalista. Tirando as declarações infelizes do ministro Gilmar Mendes, concordo em gênero, número e grau com a decisão do egrégio tribunal. Dado o número de faculdade de comunicação existentes e a baixa qualidade do ensino da maioria de muitas delas, são despejados milhares de “jornalistas” no mercado todo ano. Entre aspas sim, pois só o diploma faz de alguém um jornalista? Tenho amigos professores universitários, e posso garantir: a cada dez provas/trabalhos de alunos do ÚLTIMO PERÍODO de jornalismo que eu vejo, oito tem problemas GRAVÍSSIMOS de português, coesão textual, interpretação e de propagação clara das próprias idéias. São erros crassos que já não seriam admissíveis a alunos do segundo grau, quanto mais a quase “jornalistas”.

A maioria dos recém-formados em jornalismo que conheço demoraria duas horas para escrever um texto de vinte linhas, e talvez nem conseguissem. Jornalismo, assim como publicidade, não se aprende em um banco de faculdade. Se aprende na prática. Até porque, um jornalista recém-formado está preparado para o mercado, como um engenheiro está, ou um arquiteto, ou um advogado? A carga de conhecimento prático NECESSÁRIO aprendido nas cadeiras de comunicação social não chega a dez por cento. O resto é conhecimento geral, filosofia, sociologia, português etc. Para aprender isso é preciso um diploma?

Sinceramente, eu vejo uma geração de jornalistas neuróticos, tirando fotografias urgentes e fazendo microtextos para poder dar o furo – no bom sentido – antes de algum site ou portal. Vocês conhecem algum jornalista novato que vai segurar o bastão – no bom sentido de novo – do Millor, do Xexéo, do Verissimo ou do Luiz Garcia? Vocês vêem hoje em dia um grupo capaz de tocar uma Manchete ou um Pasquim? Nem eu. Mas vejo dezenas de “jornalistas” doidos pra soltar notinhas em seus blogs ou nos blogs dos veículos contando alguma novidade ou dando alguma manchete antes da TV ou do jornal impresso.

O jornalismo não anda bem das pernas, fato. A concorrência com a internet tem desferido golpes doloridos da imprensa tradicional. Não dá pra lutar contra isso. Velocidade da informação e colaboração vão ser o ponto forte da internet por muito tempo. Mas do mesmo jeito que 80% dos jornalistas novos têm graves problemas de formação, 90% dos blogues são uma grande porcaria. E digo mais: 90% dos cem maiores blogues do Brasil são uma boa porcaria. São repetições de piadas, comentários engraçadinhos sobre alguma coisa, fofoquinhas ou montagens de fotos. Esta queda da obrigatoriedade do diploma pode, na minha opinião, salvar o jornalismo. Se o jornalismo tradicional se focar mais no conteúdo, como era feito antigamente com o famoso e saudoso jornalismo literário, a internet não será ameaça. Quantos blogueiros hoje em dia seriam capazes de matérias e textos densos, relevantes e opinativos? Muito menos do que jornalistas já em atividade. A volta do jornalismo opinativo, literário e de conteúdo pode salvar a pele da imprensa. Muita gente procura rapidez nas notícias, mas muito mais pessoas procuram conteúdo bom, de qualidade, relevante e bem escrito. Enquanto os jornalistas dos supermercados da educação e os puristas estão subindo as tamancas, os bons profissionais e os jornalistas que preferem escrever uma matéria em uma hora do que dar vinte notícias em meia hora sabem que o lugar deles está guardado.

* o título do texto é uma referência ao que o Alexandre Inagaki disse no twitter algumas horas atrás.