Preconceito e time de futebol todo mundo tem, mesmo que você não lhe dê muita atenção ou tenha medo de admiti-lo em público. Não adianta esconder, mentir, usar camisetas com dizeres bonitos da moda, não adianta nada. Nos recônditos de nossas mentes, lá no fundo, sempre se esconde um preconceitozinho. Não é o meu caso, claro. Eu sou uma exceção. Em recôndito que mamãe passou talquinho não só não se esconde preconceito nenhum como eu não fico tentando esconder nada. Meus preconceitos estão bem acomodados fora dos recônditos. E são vários. Vários de verdade. Antes que me acusem de racista, homofóbico ou qualquer outra viadagem qualquer, vamos botar os pingos nos is. 

 

Preconceito significa pré-conceito, ou seja, um conceito que vem antes. Não é só preconceito racial ou de gênero. Esses eu não tenho mesmo, de verdade. Mas outros, bom, aí a lista é grande. Preconceito é, por exemplo, quando alguém fica sabendo que fulano de tal agora é ator, e em uma semana já tem certeza de que não só ele é veado como também participa de orgias, faz sexo com qualquer coisa que se mova – mesmo que com um andador -, usa drogas, se acha o último Mineirinho gelado em um bar em Niterói, é incapaz de formular por si mesmo uma frase com mais de doze palavras ou usar palavras com mais de três sílabas sem ter decorado com três dias de antecedência. Puro preconceito. Alguém parte desse conceito já formulado e nele rotula todas as pessoas da mesma categoria. No caso do exemplo dado acima, uma pessoa conheceu um ator veado, metido e “menos favorecido intelectualmente” – o que é algo raríssimo – e a partir daí construiu um pré-conceito que seria aplicado a todos os atores que conhecesse. Nada mais injusto, no exemplo dado.

 

Mas meus preconceitos são muito pessoais e formulados por mim mesmo. Originais e de minha própria autoria, coisa fina. Não acho que preconceitos específicos me tornem um monstro. Se alguém tem o direito de achar que um cara é perigoso porque é preto, ou é veado por ser ator (só exemplo), por que eu não posso achar que, por exemplo, sempre tem alguém com camisa do Flamengo em uma foto de prisão feita pela polícia ou em alguma baderna pública? Mas sempre tem mesmo! Isso não é preconceito! Ah, outra característica do preconceito: nunca admitimos que ele é preconceito. Sempre tentamos encobri-lo, citando fatos ou números. 

 

No caso de preconceito racial ou de qualquer outro que tenha como alvo algo que não foi uma escolha da pessoa, como ser preto, brasileiro ou vesgo, é pura burrice. Exceção feita para os paulistas. Nesse caso o preconceito não só é justificado como não é preconceito, é a mais pura verdade. Mas os meus preconceitos são racionais, baseados em escolhas feitas pelas pessoas. Ninguém pode escolher torcer pelo Flamengo impunemente ou se alguém decide ser ator ele sabe que vai ter que dar(!) o sangue(?) para ser bem sucedido. E sabe que vai ter que aturar piadinhas como essas por toda a vida. Nossa concepção de mundo é formada por preconceitos, e nem todos eles são nocivos. Se você atravessa a rua ao ver um cara preto, é burrice. Se você atravessa a rua ao ver alguém de camisa do Flamengo também. Nesse último caso você deveria, antes de atravessar a rua, esconder a carteira e o celular.

 

Brincadeiras a parte, todos somos imbuídos de preconceitos desde pequenos. De todos os tipos, alguns criados por nós mesmos, outros repassados por alguém. Ninguém vira um monstro porque admitiu que tem preconceito contra quem vê novela, lê mexendo a boca ou compra livros na seção de “Mais vendidos – Auto Ajuda”. Acontece. Admita seus preconceitos, trabalhe-os, bote-os pra fora, enfim, assuma-os! Mude os que achar que estão errados e minta sobre os que achar que estão certos! É um ótimo exercício de autoconhecimento.  Tente, você vai se sentir muito melhor. Mas se na hora de botar o preconceito pra fora você estiver em um ambiente de atores, tenha cuidado. Alguém pode se apegar ao seu preconceito, dizer que “eu não gosto de preconceito, nunca gostei, mas esse é o maior que eu já vi” ou corre o risco até mesmo de ter seu preconceito confirmado. As chances são remotas, mas pode acontecer. E se tiver alguém com camisa do Flamengo por perto, bote seu preconceito pra fora na maciota, devagarzinho e sem chamar atenção. Não é preconceito, claro…