Era empáfia demais achar que não ia acontecer comigo. Já aconteceu com o Verissimo, Vinicius, Drummond, Antônio Maria e quase todos os grandes mestres da crônica, não que eu seja um deles, claro. Depois de quase três anos desse blog mais três do antigo, aconteceu. Ela me esperava, me espreitava escondida atrás da minha estante, salivando, com a garras de fora doida pra pular no meu pescoço. E eu impávido, nem aí pra ela. Mas agora ela me pegou. Não tenho pra onde correr. Então, anuncio solenemente que é chegada a hora do meu amadurecimento como , ou seja, é chegada a hora de escrever sobre a falta de assunto.

Como disse antes, nunca havia feito isso. Os assuntos eram profícuos, eu tinha que pegá-los pelo rabo pra que não voassem de tanto que me vinham à mente. Eu os guardava com carinho em um caderninho bege, confiante de que jamais acabariam, certo de que a minha criatividade crescia em progressão geométrica. Ledo e Ivo engano. O caderninho foi esvaziando, esvaziando, esvaziando… E c´est fini. E eu nem te ligo, claro que eu teria uma idéia pro texto de sexta. E não tive. Mas pro de segunda a idéia não me escapa. Não só escapou como também levou as amiguinhas e cá estou, entrando para o Hall dos Imortais da Crônica ao me debruçar sobre o computador para escrever sobre a falta de assunto.

Mas nem pra isso eu sirvo, já estou no terceiro parágrafo e ainda nem comecei a escrever. O que deve fazer um escritor quando lhe falta assunto? Existe inspiração ou isso é só papo de escritor pra fazer charminho e pegar mulher? Se existe, quer dizer que um sujeito que escreve muito bem é só uma pessoa normal que consegue prender a inspiração com mais freqüência que as outras? Na minha opinião não existe inspiração. A bem da verdade, realmente fazer charme de escritor que perdeu a pena funciona, mas isso não existe. É o mesmo que dize que o Ronaldinho Gaúcho é um Vampeta mais inspirado. Ou que Deus tava mais inspirado quando fez a Luana Piovanni do que quando fez o Ronaldinho Gaúcho.

Mas às vezes quem escreve é acometido por um marasmo intelectual, causado por algum assunto ou evento que lhe cause muita tensão, como ficar desempregado, se separar da mulher ou ver seu time perder pra outro que joga com quarto volantes e tem um técnico mais pé-frio que pingüim com hipotermia. Um cronista tem que transformar uma coisa cotidiana em algo interessante. Simples assim. Os maiores cronistas falam sobre coisas mundanas, comuns, e fazem elas ficarem mais interessante que campeonato Sueco de luta de mulheres na lama. O Verissimo que o diga. Mas quem é fodão mesmo não tem essa. Escreve sobre qualquer coisa. Fica dois, três anos escrevendo como se tivesse fazendo pão, sem essa frescura de inspiração e “a idéia não vem!”. Isso mesmo. Escrevendo dia a pós dia, incessantemente. Até seu time perder, claro. Afinal de contas, emprego e mulher a gente arruma outro…