– Porra nenhuma! Tô na merda da ponte ainda. Saí de casa oito e meia e ainda to parado aqui. É. Ouvi no rádio que uns caras do Green Peace estenderam uma bandeira, sei lá, no vão central da ponte e essa porra ta parada. Tomar no cu, esses filha da puta não têm mais o que fazer não? Não fode! Que se foda o clima! Cambada de filhinho de papai desocupado, se eu pego um maluco desse quebro os córnos deles. Ta. Eu sei, porra, daqui a pouco eu to aí. Tchau. – Flávio gritava no telefone. Saiu de casa há uma hora, e em um dia normal ele já estaria no trabalho há vinte minutos. Mas hoje não estava nem no meio do caminho ainda.

Ana olhava pra baixo, com um nó na garganta. Ela era uma profissional, já havia feito milhares de descidas de rapéu, mas o vão central da Ponte Rio-Niterói tinha 60 metros. Além do medo da morte certa em caso de queda, ainda teria que enfrentar a polícia se tudo “desse certo”. Ela tomou fôlego e começou a descer. Ao ver o resultado ela perdeu o medo: eles conseguiram. A bandeira estava lá. Agora era descer até o fim e esperar tudo acabar.

Flávio chegou atrasado no trabalho, xingando os “filhos da puta do Green Peace”. Com o trabalho atrasado em mais de duas horas ele só pôde almoçar pelas três da tarde. Isso sem falar que o cliente com quem ele tinha uma reunião às dez tinha ficado praticamente irredutível quanto a remarcar o encontro, mas foi demovido por Flávio em virtude dos acontecimentos. Se ele pudesse mandava uma carta bomba pra sede do Green Peace.

Na delegacia o delgado perguntava por que eles haviam feito aquilo. Ninguém falava. Juntos em uma cela pequena, Ana e os outros sete que participaram da ação aguardavam a chegada do advogado, sob os olhares furiosos dos guardas e do delegado. Ana estava com muito medo de alguma coisa dar errado e ela ficar presa. Resolveu falar ao delegado e desandou a discursar sobre o meio-ambiente, o aquecimento global e a extinção das baleias, mas não o comoveu. Voltou pra cela, chorando copiosamente.

Nove da noite. Em um dia normal, o expediente acabaria às sete. Mas só agora Flávio consegui sair do escritório. A convite de um amigo, o Celso, seguiu para um bar no Centro da cidade antes de ir pra casa. Não queria ver aqueles filhos da puta na televisão. Pediram duas cervejas e, até que elas fossem oito em cima da mesa, o assunto não mudou em nenhum momento: só falavam daquilo. Para um especialista em mercado financeiro, pouca coisa poderia ser tão idiota no mundo quanto aquilo.

Tudo deu certo: a organização pagou a fiança e todos foram soltos. Seguiam todos pro albergue de onde voltariam cada um para o seu estado no dia seguinte, mas Ana não quis. Ligou para uma amiga que morava no Rio, a Cláudia, e desceu da van na Praça Mauá, e encontrou com a amiga. Depois de contar toda a sua aventura, seguiram para um bar próximo, onde a amiga encontraria o namorado.

Entraram no bar procurando pelo namorado de Cláudia. Ela dera uma descrição para a amiga, que estava ajudando a procurar. Depois do que havia acontecido durante o dia, pouca coisa poderia chamar mais a atenção em um happy hour do que uma camiseta verde do Green Peace, como a que Ana estava usando. Enquanto Ana olhava fixamente para um sujeito sentado em uma mesa, Cláudia pegou-a pela mão e foi caminhando rapidamente em direção àquela mesma mesa. “Muito azar”, pensou Ana. “O cara é uma gracinha e é namorado dela”.

Chegaram na mesa, apresentações formais. Ana, esse é o Celso, meu namorado. Esse é o Flávio, amigo dele. Flávio, essa é a Ana. Os dois, Ana e Flávio, não paravam de se olhar. A primeira coisa que Flávio pensou foi: “fudeu! Eu aqui falando mal desses filhos da puta o dia inteiro, e essa patricinha linda deve ter ido a Londres no verão e comprou uma camiseta deles”, enquanto Ana se lembrava de que Cláudia havia comentado que o namorado dela trabalhava em um banco multinacional, e que toda a equipe tivera que fazer hora-extra até as nove da noite por causa do engarrafamento na ponte.
Durante a conversa, Flávio, para impressionar, disse que estava largando o mercado financeiro, e que o protesto feito pela manhã o havia alertado de que não era aquela a vida que ele queria. Ana, com receio de ser culpada pelo namorado da amiga de alguma coisa, disse que comprou a camiseta da ONG em uma visita a Fernando de Noronha, que até gostava deles, mas os achava muito exagerados.

Três anos e meio depois, durante uma bebedeira, os dois disseram toda a verdade um ao outro sobre o dia em que se conheceram. Riram muito mas ambos tinham que concordar: muita coisa havia mudado. Flávio largou mesmo o mercado financeiro e abriu uma empresa que investe em micro e pequenas empresas nacionais do ramo de ecologia e educação. Ana nunca mais voltou pra Brasília e tampouco se reintegrou ao Green Peace. Terminou a faculdade de administração no Rio mesmo e agora trabalhava em uma empresa de marketing esportivo. Ambos concordaram que além de ter valido a pena ter chegado atrasado ao trabalho ou ter ficado presa uma tarde inteira naquele dia, agora teriam uma estória e tanto pra contar pros netos. E tudo por causa daqueles filhos da puta.