Tava na cara que não ia dar certo. Desde o começo eu torço o nariz pra isso. não era um nomezinho e meia dúzia e reuniões e Fóruns que iam unir um mundo que tenta se destruir há dezenas de milhares de anos. A Europa sempre se achou a única parte civilizada do mundo, e não ia ser com uma palavrinha criada pra se ter assunto nas revistas semanais que isso ia mudar. Desde que se começou a falar em globalização, essa palavrinha que nunca quis dizer nada de concreto, veio esse papo de aldeia global e blábláblá sociológico de conversa de botequim. Alguém achava mesmo que os Europeus iam achar legal os imigrantes “roubando” os empregos deles, tanto os de baixa quanto os de alta qualificação? Algum imbecil tinha a ilusão de que os EUA iam afrouxar a lei de imigração e aceitar de braços abertos os latinos e os asiáticos? Algum cretino em algum momento máximo de imbecilidade achou que povos que tentam se matar a milênios iam agora se dar as mãos, brincar de roda e ficar amiguinhos? Alguém se iludiu que eleger um preto, filho de africano que cresceu na Indonésia como presidente lá de cima ia mudar alguma coisa? Essa crise financeira serviu pra acabar de vez com esse papinho de globalização. Fronteiras fechadas, protecionismo e o auge da cretinice – o patriotismo – voltaram à moda e se esqueceu a palavrinha mágica do parágrafo anterior. Vão sobretaxar as importações, arrochar a entrada de imigrantes e fomentar esse câncer dos imbecis que é o nacionalismo. Sabem o pacote de estímulo à economia que a América lá de cima liberou? Então, tem uma cláusula chamada “buy american”, que só disponibiliza o benefício se as empresas se comprometerem a só comprar produtos americanos, e VETA, repito, VETA, a compra de aço e ferro estrangeiro pras obras americanas. Bacanão, né?! Enquanto isso, no mundo civilizado do Velho Continente, uma lei italiana obriga médicos a delatar imigrantes ilegais que forem atendidos por eles, skinheads espancam imigrantes pelas ruas e na França, o governo vai recompensar com vistos os estrangeiros que denunciarem redes ou grupos de imigrantes. Isso sem falar no povo do Oriente Médio. Eles pelo menos são constantes: a globalização nem abalou a matança deles. Eles não tão nem aí. Se matam sem preconceitos de cor, nacionalidade ou conta bancária. E aliado a isso ainda tem os idiotas idealistas, que acham que o Getúlio não foi um ditador, que Che não foi um assassino e que Fidel e o Chavez se preocupam realmente com o povo. Aí fazem Fórum, reunião e o escambau, achando que isso vai mudar alguma coisa. Vai nada. Ainda mais agora que eles acharam a desculpa ideal pra voltar à desglobalização. Enquanto tiver babaca pra sair daqui e ir lavar chão na Europa ou cortar grama nos EUA isso vai acontecer. Enquanto tiver idiota sonhando em morar fora só pra ter carimbinho no passaporte, isso vai acontecer. Sou totalmente contra o patriotismo, sempre fui e sempre vou ser, mas daí a ir lavar pratos ou ser babá em outro país já são outros quinhentos. O Brasil é uma merda, mas lá fora também é. A diferença é que eles não deixam a merda entrar, enquanto nós vivemos engolindo a merda deles e achando que a merda deles é mais cheirosa. Se o Brasil fosse protecionista como eles são e não deixasse qualquer estrangeiro de bosta fazer o que quiser aqui dentro, eles iam se incomodar. Não é patriotismo. Patriotismo é uma idiotice. É só um pensamento antigo de que se eu tenho dez, você tem mil e a gente junta, você levou vantagem. Então porque achar que quem tem mais vai querer juntar alguma coisa? É aquela velha estória: filho, peido e crise financeira, cada um só agüenta o seu…