Depois que Freud, Lacan e seus amiguinhos deram o ar da graça, o mundo nunca mais foi o mesmo. Há de se admitir que o ramo da psicologia tornou a nossa vida muito mais divertida, além de ter criado boas desculpas. Nada melhor, por exemplo, do que justificar aquela clássica troca de nome da namorada pelo da ex em momentos impróprios com o bom e velho Déficit de Atenção, ou explicar que aquilo que a amiga dela viu na noite anterior era tão somente um caso de Síndrome de Estocolmo e que aquela loira pendurada no seu pescoço havia te seqüestrado horas antes, e tudo não passara de um surto da rara síndrome. Você não teve culpa.
Mas de todas essas síndromes, distúrbios e taras, a minha preferida é a síndrome de Peter Pan. Todo mundo sabe que nós homens somos idiotas, não crescemos nunca, mas agora temos justificativa médica: temos síndrome de Peter Pan. Mas isso não é nenhuma novidade, como eu disse. Jogar videogame, colecionar carrinhos ou ver e rever e rever e rever e rever Indiana Jones, De Volta para o Futuro ou Rocky são coisas que milhões de homens fazem todos os dias. Até porque, como todo mundo sabe de novo, videogame é que nem peitos: foram feitos pras crianças, mas os adultos se divertem muito mais com eles. Eu por exemplo duvido que qualquer criança no mundo se divirta mais que eu com um belo par de… er… com um bom videogame. Duvido.
A diferença entre ser adulto e ser criança é que quando a gente vira adulto, os brinquedos ficam mais caros. E mais divertidos, não resta dúvida. Mas qual o problema disso? Um sujeito não pode ser um profissional respeitado e competente e jogar videogame em casa? Essa cultura do funcionário do Banco do Brasil que chega em casa e janta com a família vendo o Jornal Nacional anda meio fora de moda. Com a chegada da internet, é muito mais fácil encontrar pessoas que compartilhes dos mesmos gostos e hobbies que a gente, e então esse hobbies ficaram mais profissionais, por assim dizer.
Eu coleciono brinquedos, leio quadrinhos, tenho um copo do filme Madagascar aqui no trabalho, vejo desenho animado, jogo videogame quase todo dia e entro em um estado de transe profundo vendo jogos do Fluminense. E não sou nenhum idiota por isso. Até sou, mas não por isso. Até por que, no fim das contas, como eu disse lá em cima, todo o nosso trabalho é só pra bancar os brinquedos, que ficam mais caros com a idade. Ah, e também temos que guardar algum pro analista quando a namorada começar a reclamar que nós somos doentes pelo nosso time de futebol ou que não pega bem ficar andando com camisa de desenho animado. No fundo no fundo, é tudo culpa dos psicanalistas. Menos a parte dos peitos, claro.