Apesar de nunca ter parado pra pensar nisso, sempre que paro pra pensar na minha relação com a cidade do Rio de Janeiro me lembro daquela antiga piada que acabei de inventar, da prostituta que queria mudar de vida e arrumava um namorado de 87 anos com Alzheimer, porque todos os dias ela dizia pra ele que só tinha tido um homem na vida, e todos os dias ele tinha prazer em ser o segundo. Sem conotações sexuais, claro, mas é assim que me sinto em relação à cidade do Rio de Janeiro.
Explico: podem anotar o que eu vou dizer. A melhor maneira de se amar e conhecer a cidade do Rio de Janeiro é NÃO tendo nascido na cidade do Rio de Janeiro. É isso mesmo. Eu nasci e moro em Niterói. Pra quem não conhece, Niterói fica entre a ilha de Lost e o Triângulo das Bermudas, há doze quilômetros do Rio. Sendo Niterói uma cidade relativamente pequena, vizinha de porta do Rio e com menos de um milhão de habitantes, os moradores de Niterói, via de regra, trabalham no Rio de Janeiro. Excetuando-se, claro, as profissões que existem em qualquer cidade, como médico, professor, advogado ou acessor fantasma de vereador. E eu não fujo à regra.

Mas quanto a nascer aqui ser a melhor maneira de se amar e admirar o Rio de Janeiro, vejam se não faz sentido. Desde criança, pra mim Copacabana nunca foi logo ali, eu não via o Cristo Redentor da janela da cozinha nem ia todo fim de tarde caminhar no Aterro do Flamengo. Essas coisas pra mim eram como pontos turísticos. Mas aí vem a parte boa: pontos turísticos que eu visitava todo mês, alguns toda semana, na pior das hipóteses uma vez a cada dois, três meses. E era o suficiente pra eu sentir saudades e me maravilhar a cada uma das duzentas vezes que eu ia ao Pão de Açúcar ou à Praia de Ipanema. Morando em Niterói nunca se corre o risco de achar o Rio um lugar banal, corriqueiro.
Todos os dias eu pego meu ônibus e vou pro trabalho, no Rio. Eu nem trabalho tão longe, sem trânsito, ou seja, nunca, leva uns trinta minutos pra chegar. E na ida, ainda de dia, eu raramente vou fazendo alguma coisa. Geralmente eu vou ouvindo música e olhando pela janela. É bacana, o ônibus vai pela orla, vou vendo a praia, o Cristo lá longe, um assalto li na calçada, a praia na esquina do meu trabalho… Mas eu não fico lá. Eu volto pra casa, e no dia seguinte vejo tudo de novo. E no fim de semana que eu não vou trabalhar (não que eu esteja reclamando, eu posso viver com isso), a viagem na segunda-feira parece a primeira em meses. E às vezes eu vou pro Rio no fim de semana, e apesar de já ter estado ali algumas dezenas de vezes, me sinto um turista, e o assombro e o arrebatamento, e “How Insensative” tocando baixinho lá no fundo, são sempre os mesmos.
Se você sai de Niterói e vai pra Barra da Tijuca, por exemplo, pela orla, você se sente em um videoclipe de uma música do Tom e do Vinicius. É sensacional. Pra quem não é do Rio, a distância entre Niterói e a Barra de Tijuca equivale àtrês vezes a distância entre a Terra e a Lua . Você passa por metade da cidade: Flamengo, Botafogo, Copacabana, Ipanema, Leblon, Acre, Fernando de Noronha, aí depois chega na Barra. E ao mesmo tempo que eu to lá, andando pela rua por onde andaram Drummond e Vinicius, almoçando no restaurante onde um dia almoçaram Noel Rosa ou Chico Buarque, aquilo não é corriqueiro pra mim. Eu vou voltar pra casa, e voltar lá pra visitar no dia seguinte.

Por isso eu me considero um carioca mais sortudo que os cariocas, porque eu tenho a honra e o prazer de visitar o Rio de Janeiro todos os dias, mas não o vejo o tempo todo. O Rio é a cidade mais bonita de todas as que eu conheço, e melhor ainda do que viver nela é visitá-la todos os dias. Não se corre o risco de achar aquilo corriqueiro ou de deixar passar despercebido. É como se apaixonar pela mesma mulher todos os dias. Ou, na pior das hipóteses, é como namorar uma mulher que é ninfomaníaca de noite e maníaco-depressiva de dia, e só ir visitá-la todos os dias depois do trabalho. E do jeito que anda o Rio, visitar a ninfomaníaca só de noite diminui os riscos de ser assaltado em um sinal onde um dia já atravessou Pixinguinha ou ver seu time perder pro Duque de Caxias por três a zero no mesmo estádio que já jogaram Rivelino, Washington e Assis…

* Esse texto é um exercídio para um curso que eu estou fazendo. Opinem, por favor, e me ajudem a ganhar meu primeiro milhão antes dos trinta. Só falta um ano.