Basicamente, há três tipos de mulheres comprometidas que já tem meio caminho andado rumo à felicidade eterna e às cenas em câmera lenta na chuva tocando jazz ao fundo: as que namoram ou são casadas com escritores, com homens ricos e a Ellen Jabour, porque eu sou macho mas o Santoro é boa pinta pra cacete. Mas mesmo esses três tipos de mulheres têm suas desvantagens. E pra nós, escritores, milionários ou o Rodrigo Santoro, também há desvantagens. No caso dos milionários e do Rodrigo Santoro, eu fui pro almoço e voltei e não consegui pensar em nada, então vou falar só nas desvantagens de se ser um marido/namorado/noivo escritor.

Pra começar, a cobrança. Porra, se a gente vive dessa merda, tudo o que a gente escreve, na idéia delas, tem que ser genial. Bilhete dizendo que vai se atrasar, cartão de visitas, mensagem de celular, até assinatura em cheque tem que ter genial. “Anota seu telefone aqui pra mim”. “Ta”. “Porra, que droga de escritor é você? Só isso? Seu nome e telefone?”. Da próxima vez eu escrevo o Soneto da Fidelidade ou a Lira Romantiquinha. Porra. Se uma mulher namora um médico e fala que ta com uma dorzinha da barriga ela pede pra ele puxar um bisturi e tirar uma pedra dum rim? Ou se namora o Marcelo Camelo ela pede pra ele… pra ele… eh… ela pede pra ele… cantar Ana Julia em todas as festas que ele vai?? Claro que não.

Passando essa fase, tem outra: a da comparação. Por mais que a gente tenha a mesma coisa a falar pra cinco pessoas, não vai ser da mesma maneira. Aí fulano acha que o depoimento de cicrano é melhor que o dele, aí Zé acha que o scrap que você mandou de feliz aniversário pra Maria ficou mais engraçado que o dele, e por aí vai. Mas o pior é quando a comparação é dos textos românticos. A primeira namorada é uma sortuda: tudo aqui que a gente sempre sonhou em escrever, é ela quem vai ganhar. Milhares de cartas, texto todo dia… Aí acaba o namoro e vem a próxima. E como inspiração é pros fracos e pros atores pornô, a gente faz cartas e textos mil também, mas o tema não varia, o que varia é a forma de dizer. Aí, camarada, na terceira namorada, fodeu. “Pra sua ex você escrevia todo dia, já tem cinco dias que você não me manda nem uma cartinha”, “Poxa, só um cartão” ou “Os textos pra Rosilene eram muito mais bonitos que os meus” são frases comuns de se ouvir.

Mas também tem a vantagem da punheta de ego. Se você escreve razoavelmente bem, é muito pouco provável que alguma das suas amigas tenha um namorado que escreva como você. E todas elas vão morrer de inveja quando lerem os seus. Se você souber dosar humor com o romantismo então, camarada, é batata. Mas mesmo assim, se prepara. É quem nem ser cozinheiro ou barman. Vai ter que cozinhar e fazer drinquezinhos coloridos com guarda-chuvinhas todo dia. A não ser, claro, que você seja milionário ou seja o Rodrigo Santoro. Se você for rico, me contrata pra escrever, contrata o Olivier Anquier pra fazer o jantar e manda brasa na patroa. Agora, quanto ao Rodrigo Santoro, camarada, se conforme. Se um dia a sua mulher estiver frente a frente com o sujeito, não há dinheiro, poema ou cinto de castidade que dê jeito. Parafraseando alguém que não lembro que, falando a respeito do Chico Buarque, todo homem é corno do Rodrigo Santoro. Menos eu.