Uma das muitas coisas com a qual eu nutro uma relação de amor incondicional e ódio entorpecido é o telefone celular. São coisas que eu tenho que usar ou fazer – e sempre faço -, seja por dever do ofício seja por impossibilidade de aderir a um boicote completo. As outras são a internet, fazer xixi em banheiro de avião, usar óculos, dar papo pra velhinha do meu lado no ônibus, guarda-chuvas, entre outras. Eu não sou um entusiasta do celular, mas as circunstâncias não me deixam ser um completo incomunicável. Falo estritamente com namoradas, amigos mais chegados, sobrinho e trabalho no celular. Mas essas poucas situações já me fazem ser conhecido por falar muito ao celular.     

            E e is que, com vinte e oito anos, quase vinte e nove, me descobri asmático. Tudo bem é uma asma leve, nem precisa de bombinha nem nada, mas é asma. E como tudo tem um lado bom, menos a torcida do flamengo, a minha asma também tem. Eu nunca fumei, e sempre fui muito chato com quem fuma. Ainda sou. A fumaça me incomoda, eu fico fedendo, essas reclamações anti-tabagistas chatas que todos vocês já conhecem. Mas agora eu tenho uma desculpa médica pra ser chato. Acendeu um cigarro eu já começo a tossir. “Ta te incomodando?”. “Não, não, é que eu tenho asma, mas se eu sentir falta de ar eu saio de perto, se incomoda não.”, aí eu dou aquela tossida de tuberculoso, boto a mão no peito como se tivesse com falta de ar e pronto, o fumante se toca e apaga o cigarro.

            Mas vocês sabem o que eu queria mesmo? Ter asma com alergia a gente falando no celular. Que dádiva seria. Em fila de cinema, ônibus ou metrô lotado, no trabalho, no teatro, enfim, seria uma verdadeira benção. Imagina só: você na fila do cinema, e de repente, do seu lado “Deivid, não interessa! Ta achando que eu sou o que? Agora vai atrás daquela vagabunda lá! Me ama porra nenhuma! E daí que era travesti! Bem feito!”. E isso como se estivesse falando com alguém do outro lado da rua cidade América Latina. Eu logo começava a tossir em cima dela, deixando escapar um perdigoto bem no olho, e mandava alto: “Porra, asma é foda. Essa alergia a celular é uma merda, eu começo a tossir e daqui a pouco eu começo a peidar. E o pior é que ontem eu comi ensopado de repolho rôxo com batata doce”. Duvido que ela ia continuar a discussão com o Deivid.

           E quando a pessoa fala alto como querendo te inteirar na conversa? Alguém falando que comeu a, digamos, Wanda, ou que mandou o chefe às favas ou reclamando da crise, do trânsito, do escambau. Hoje em dia eu tenho duas preocupações quando entro em um restaurante: sentar longe de janelas e varandas – pra evitar eventuais fumantes -, e me sentar em algum lugar bem barulhento, para evitar eventuais falastrões. E o pior de tudo é que assim como acontece com o cigarro, o chato sou eu! O antitabagsita mala e que reclama se tem alguém no celular sou eu! Eu não tenho o direito de não querer chupar fumaça nem de saber sa vida alheia, mas eles têm o direito de dar baforadas na minha cara e berrar ao quatro ventos que comeram a, suponhamos, Adalgiza ou ficarem reclamando da vida como se eu estivesse muito interessado em saber? 

         Acho que deveríamos segregar quem fala muito ao celular. Os restaurantes e espaços públicos deveriam ter áreas reservadas ao fumantes, aos faladores de celular e ao Dado Dolabella, afinal de contas ninguém quer levar uma facada ou tomar um cinzeiro nos cornos enquanto almoça com a patroa. Ou então fazê-los passar por algum tipo de humilhação, como passar o dia com uma camisa do vasco ou ter que admitir publicamente durante um mês que votou no Eduardo Paes. Vagões de metrô e cadeiras especiais em ônibus para os falantes de celular. No futuro, a cena abaixo será comum nos lares brasileiros:

 

– Mãe, esse é o Pão com Ovo.  Meu namorado. Ele é ex-presidiário, viciado em heroína, alcóolatra, me bate, tem doze piercings, sete tatuagens, torcia pro América agora é vascaíno, votou no Eduardo Paes, é publicitário e já foi no show dos Los Hermanos. Três vezes.

– Mas minha filha, é isso mesmo que você quer? Eu preferia algo melhor pra você, mas se vocês se amam…

        Toca o celular de Pão com Ovo.

 – Com licença. (ele puxa o celular e está prestes a atender)

    Enfurecido, o pai de, digamos, Ludmila, investe com toda a fúria contra PCO (Pão com Ovo), desferindo um tapa no seu celular e o imprensando contra a parede, com o dedo em sua cara.

– Licença é o caralho, rapá! Tá pensando o que, vagabundo? A Ludmila é uma menina de respeito seu pilantra! Não vai ficar andando por aí com mau caráter que fica atendendo o celular pela rua não, seu falador de uma figa! E larga do pé da minha filha senão eu te arrebento, desgraçado! E não tô nem aí se você pode ligar pro escambau! Se eu te ver com a minha filha de novo a sua família vai precisar de um aspirador a vácuo, um pé de cabra e um pode de KY pra tirar esse telefone de dentro de você, seu filho da puta!

    Enquanto PCO se retira da casa, cabisbaixo e envergonhado, Ludmila, aos prantos, grita que não quer mais viver, e que sempre que encontra um rapaz bom e honesto isso acontece, e se tranca em seu quarto amaldiçoando Graham Bell.

  

    Aguardo a chegada desse dia como um crente aguarda a volta do Messias. Ou como uma namorada do Dado Dolabella aguarda a chegada da ambulância depois de um romântico jantar rotineiro.