Ontem eu vim pra casa pensando no ônibus. Na verdade, pensando na vida, dentro do ônibus. E enquanto ouvia uma música chamada Superman, de uma banda chamada Five for Fighting, tava pensando em uma conversa que eu havia tido no trabalho, e uma frase da musica me fez parar pra pensar mais ainda naquele assunto. “Even heroes have the right to bleed”. Foi essa frase que encaixou no que eu tava pensando, e me fez mandar uma mensagem de mim pra mim mesmo no celular pra não esquecer de escrever isso quando chegasse em casa.

          Meu Ego tem mais ramificações que o Google, e essa é mais uma delas. É o que eu chamei modestamente de Sídrome de Super Homem. O assunto era sobre uma pessoa, daqui pra frente chamada de A., que mantêm um relacionamento com um sujeito comprometido. E, en passant, a ouvi confidenciar a uma amiga que o tal fulano, daqui pra frente chamado de B., até gostava dela, mas não teria coragem de terminar o relacionamento, pois não suportaria fazer a esposa sofrer, e não suportava fazer ninguém sofrer. E ele dizia também, que se fosse pra alguém sofrer, que fosse ele.

         Que fique claro que eu não vou nem defender nem condenar o sujeito – eu não tô nem aí. Mas a questão é que eu sempre pensei assim! Achei que eu era o único idiota no mundo que pensasse desse jeito. Eu simplesmente não suporto fazer alguém sofrer, e sempre prefiro que esse alguém seja eu, aí depois eu venho aqui, faço um textinho meloso e vocês levantam o meu astral. Na situação dele é muito provável que eu também não tivesse coragem de fazer a minha esposa sofrer. Mas o que isso tem a ver com o Super Homem? Muito.

          Eu não faço isso por altruísmo, ou pela minha bondosa alma. É porque eu, do alto do meu Ego de sessenta e dois andares – sem contar o play, a portaria e a garagem – sempre acho que sou muito importante na vida das pessoas. Eu sempre penso “caralho, o que vai ser dela sem mim”, ou “como ela vai conseguir fazer não sei o que lá sem a minha ajuda?”. E quando eu termino um relacionamento, ou mesmo uma amizade, eu fico querendo saber como a pessoa está, se ela está bem, como ela tá se virando etc.

          A coisa que mais me incomoda é ter que tomar uma decisão onde alguém vai se machucar no final. Eu sempre acho que se eu não cuidar da pessoa pra sempre ela não vai conseguir. Idiota, é claro que elas conseguem. Conseguiam antes de mim, e vão continuar conseguindo depois. Mas vai convencer meu cérebro cheio de Ritalina e Rivotril disso. Não vou fazer análise, nem ler Paulo Coelho nem virar ator de teatro. Vou continuar assim, com essa “síndrome de Super Homem”, e toda vez que eu tiver puto da vida eu venho aqui, faço um textinho aviadado que nem esse e vocês me confortam. E la nave va.