Se tem uma coisa que me deixa puto da vida é quando eu passo semanas, meses pensando em um tema, tentando escrever sobre ele, fico matutando, começo, apago, reescrevo, apago tudo, aí de repente vejo um texto falando exatamente o que eu queria dizer. Acabo de receber um texo do Gabo – O Gabriel Garcia Márquez, pros não íntimos. E o nome do texto era “Desventuras de um escritor de livros”. E como eu já queria falar disso tem um tempo, mãos a obra. Só que, como ainda não escrevi nenhum livro, o nome vai ser diferente.

 

As desventuras de um escritor de livros de blogue

 

          Bom, só pra deixar claro pros desocupados de plantão, quando eu digo ‘escritor’ aí em cima, é no sentido literal: aquele que escreve de maneira habitual e periódica. Não necessariamente que já tem um livro publicado. E como eu não escrevo em jornal, nem revista, nem em verso de calendário nem sou ghostwriter do Paulo coelho, vou falar do que eu faço. “Desventuras de um escritor de blogue”. Não tem importância escrever em blogue? Caguei. Essa é a primeira vantagem: o blogue é meu e eu escrevo sobre o que eu quiser. Ninguém me paga, ninguém vai me mandar embora.

          Pra começar, no meu caso eu não ganho nada com o blogue. Então, por dinheiro é que eu não escrevo. E como eu já escrevia antes, comigo o processo foi contrario. Não foi um “quero fazer um blogue, mas de que?”. Foi mais um “quero escrever em algum lugar, mas aonde?”. Aí surgiu o blogue.

          Eu podia romancear, poetizar, falar que eu escrevo porque eu preciso, porque tem uma coisa que me faz escrever, que eu sofro pra escrever, e todo mundo ia acreditar. Mas é mentira. Eu escrevo porque eu gosto e porque eu tenho facilidade. Tirando trinta milhões de dólares por ano, as gostosas atrás dele, as Ferraris e Lamborghinis e não ter que aturar o Paes como prefeito, por que vocês acham que o Ronaldinho gaúcho joga futebol? Porque ele gosta e joga bem. Simples assim. Se eu, ao invés de facilidade pra escrever, tivesse, suponhamos, um gosto por maquiagem, usasse calça justa, depilasse o peito e usasse mousse no cabelo, eu ia ser ator de teatro, e não escritor. Mas é o que eu sei fazer.

          Tirando a parte técnica, por que cargas d’água um sujeito continua escrevendo, duas vezes por semana, uma vez por semana uma vez na vida outra na morte no seu blogue? Exibicionismo? Necessidade de auto-afirmação? No início, admito, um pouco. Eu queria ver se alguém além das cinco ou seis pessoas que liam meus textos achavam que eu escrevia bem. Mas com o tempo você vai pegando confiança e isso deixa de ser importante. E é aí que a trajetória de quem escreve na internet se encontra com a de quem escreve livros. Tirando a parte da ganha – que mesmo pra quem escreve livros não é muita – todos escrevemos pela resposta dos leitores. No caso dos blogues essa resposta é mais imediata, mas no caso dos escritores de livros a resposta é mais ampla e tem mais repercussão. E com o tempo, você vai sabendo o que o leitor vai gostar ou não, e vai experimentanto, empurrando o limite. Tentando uma piada a mais, um palavrão a mais, um tema diferente etc.

         E mesmo depois que vira profissão no sentido literal, acho que essa resposta, esse desejo intrínseco de ter o poder de fazer alguém rir, chorar, se emocionar ou se alegrar continua sendo senão o mais importante, mas o objetivo mais almejado. Eu me orgulho muito quando vejo alguém que botou um texto meu no orkut, mandou pra namorada ou pra um amigo. Isso é que conta, pelo menos pra mim. Eu não vou ser falso e falar que escrevo pra mim mesmo, porque se eu escrevesse pra mim mesmo, eu escrevia num caderninho e não publicava. Eu escrevo pra que alguém leia e goste. 

          Às vezes eu preciso escrever? Fica alguma coisa engasgada e eu preciso escrever, preciso compartilhar com alguém? Claro, acho que isso acontece com todo escritor. Mas não é sempre. Aliás, não se iludam TODO texto, meu e de todos os escritores do mundo, tem uma pequena carga biográfica nele. Não dá pra evitar. A gente sempre bota no texto algo nosso, mesmo sem querer, mesmo tentando esconder. Nenhuma estória, nenhum diálogo e nenhum texto é cem por cento inventado. Provavelmente aquilo foi adaptado a partir de um fato verdadeiro, aumentado, incrementado, enfim, inspirado em alguma coisa. 

          Escrever se aprende? Não. Escrever se ensina? Não. No máximo se aprimora a escrita. Usando uma analogia que usei uma vez, se treino melhorasse a habilidade de alguém no futebol, se o Vampeta treinasse dez horas por dia, em uns anos ele jogaria mais que o Ronaldinho Gaúcho… Mas futebol é que nem escrever, que é que nem música: o sujeito nasce com aquilo. E ele aperfeiçoa ou não, ele aprende a usar ou não. Eu, por exemplo, não conseguiria ensinar alguém a escrever simplesmente porque é algo inerente a mim. Como um camaleão ensinar a andar na parede: é só botar o pé lá e sair andando. Mas, infelizmente, é muito fácil se fingir que escreve bem por meio de frases feitas e proparoxítonas.

          Então, é isso. Quer escrever? Você vai ganhar pouco, se ganhar alguma coisa, vai ser tachado de mentiroso, ‘Forrest Gump’, enrolador, metido, vai ser motivo de piada e nunca mais vai ter paz, porque vão te pedir pra fazer carta pra namorada, texto pro orkut, texto pra teatro, textinho pra trabalho de faculdade, vão te pedir pra corrigir tudo, ler tudo e dizer o que você acha sobre tudo. Mas se você quer a minha opinião, vale a pena. Vale muito a pensa saber que tem gente que gosta de ler o que você escreve. E que te cobra se você some. Então, mãos à obra.