“Nando fala: porra, aquele beijo de ontem foi foda. Pensei naquilo a noite toda.

            Renata fala: O que? Que merda é essa, Fernando? A gente nem se viu ontem! Pra quem era essa mensagem, Fernando???”

Nando conversava com a namorada em um programa de mensagens instantâneas, e no meio de uma conversa sobre um assunto qualquer, ele envia pra ela a mensagem que começou o texto. A mensagem não era pra ela, lógico, era pra uma “amiga” com a qual ele recém havia envolvido. E Renata, que não é boba nem nada, percebeu de primeira o engano e tratou de botar o gajo contra a parede. E pra facilitar a minha vida, daqui pra diante vou relatar o diálogo deles normalmente, como se eles estivessem pessoalmente. Dá trabalho isso de “fulano fala”, “fulana fala”… Bom, vamos ao que interessa:

 

– O que? Que mensagem, amor?

– Fernando, para de ganhar tempo e fala logo! Essa mensagem não era pra mim! Era pra quem, Fernando??

– Pra ninguém, amor…

– Pára de me chamar de amor e fala logo!!

– Amor…

– Se você não responder agora acabou tudo!

– Amor, não era pra ninguém. É uma estória que eu to escrevendo… Um livro…

– O que? Livro?? Ah ta, claro! Ta achando que eu sou idiota, Fernando??

– Amor, você sabe que eu to querendo começar a escrever alguma coisa mais séria. Crônica de humor não dá pra ganhar dinheiro…

– Você vai insistir nisso, Fernando?? Que merda!

– Amor, é sério! To mesmo! Você acha que se eu fosse falar isso pra alguém ia ser pelo msn? Correndo o risco de você ver depois ou até disso mesmo, de te mandar uma mensagem errado?

– Eh… sei lá! Mas não me convenceu não! Então qual o contexto dessa frase? Qual a estória? Que que ela respondeu depois?

 

E Fernando passou as próximas três horas contando a estória de William e Beth, protagonistas de uma complicada trama de amor, por conta do então noivado de William com uma ex-colega de faculdade de Beth e da atração que ele e Beth sentiam agora um pelo outro. Depois das três horas de conversa, resolvido o imbrólio e acalmada a namorada, Fernando se sentou e escreveu a estória que se vira obrigado a inventar. E ali viu nascer o tal romance que ele tentava escrever há anos, e que iria finalmente tirá-lo do anonimato.

E hoje, durante o discurso de premiação da Academia pelo Oscar de melhor roteiro adaptado, que ele mesmo havia escrito em cima do seu próprio livro, que há nove meses havia lhe garantido sete prêmios internacionais de literatura e lhe rendera um contrato de centenas de milhares de dólares com uma editora multinacional, com a tradução de seu romance pra treze idiomas e um polpudo adiantamento por um próximo livro.

E no palco da premiação do Oscar, Fernando acabara de contar a estória de como lhe veio a idéia do romance. A mensagem errada, a desculpa esfarrapada, enfim, o desespero para livrar a própria pele. Escritor ágil, humorista profícuo e irônico, fez a platéia vir abaixo com aquela estória esdrúxula e até um pouco modesta, justificando seu aparentemente intrínseco e doloroso processo criativo. Orgulhosa do bom humor do marido e boquiaberta com a sua capacidade de inventar situações, Cora, sua atual esposa, lhe retribuía a piscadela dada pelo marido durante o discurso. Porém, atrás dela, o verdadeiro alvo da piscadela não retribuía nem se sentia orgulhosa, apenas sorria, como se tivesse se lembrado de alguma piada. Verdadeiro alvo da piscadela e da mensagem que inicia esse texto: Beth.