Você percebe a real importância – ou falta de – alguma coisa, ou de alguém, quando ela começa a virar medida pra outras coisas ou pessoas. Na verdade, a importância negativa ou positiva. Quando alguma coisa ou alguém começa a servir de medida, de comparação, aí a coisa fica feia. Não digo comparação do tipo “mas você ta parecendo fulano”, ou “nossa, isso me lembra cicrano”.

To falando de virar medida mesmo, UNIDADE de medida. Quando você fala que o deputado xis é ‘meio Brizola’, porque a (suponhamos) esposa dele perdeu as eleições em alguma cidade (suponhamos novamente) do interior do Estado e ele fez escândalo, gritou, berrou, ameaçou, mandou demitir, fez biquinho e chamou todo mundo de chato, feio, bobo e cabeça de melão, ISSO é ser medida. Independente de ser pejorativo ou não, ‘ser meio Brizola’, por exemplo, virou medida praquele político verborrágico, que fala o que quer, briga, grita, reclama e no fim sempre se acha injustiçado e acha o povo ingrato.

‘Esse autor é meio Paulo Coelho’, por exemplo, é um pouco mais ofensivo do que ser ‘meio Brizola’. O Brizola era assim mas era um sujeito de caráter, de virtudes inegáveis. Já o Paulo Coelho, bom, digamos que as virtudes dele não sejam assim, como direi?, tão, digamos, visíveis. Ser meio Paulo Coelho é aquele autor que fala, fala, fala, não diz nada mas todo mundo gosta. Não vou citar nomes, afinal, amanhã podemos ser – isso É um lobby – colegas de editora. É aquele cara que escreve mal, só fala clichê, mas mesmo assim todo acha ele o máximo e adora citar autor francês e fazer ar de blasé ‘não adianta explicar porque vocês não vão entender mesmo’.

Tem outras medidas recorrentes, como ser meio César Maia (maluco que acha que é a frente do seu tempo) ou ser meio estudante de teatro (veado que quer ter uma desculpa formal pra desmunhecar, ver os amigos pelados e se vestir de mulher). Eu mesmo, tenho que admitir, sou medida pra várias coisas. A maioria negativa. ‘Você ta meio Léo’ tem mais significados do que tem atendimento publicitário que depila o peito e usa anel no polegar em sauna gay. Se você é muito chato, fala demais, não para quieto, pergunta tudo o tempo todo ou se simplesmente tem o Ego maior que topete de vocalista de banda independente, com certeza um dia você vai ouvir que você ‘é meio Léo’. Já ouvi dizer até que já deixaram escapar um ‘Aaahhhh!! Vai, vai! Isso! Assim, assim!! Vai, vai, vaaaai!! Aaahhh, você é tão Léééééééééoooo!!’. Mas claro que não passam de boatos não confirmados. A única comparação da qual me gabo até hoje foi de ter ouvido um ‘pô, você é meio Verissimo’. Levando em consideração que eu não sou nem um pouco tímido e não sei – por enquanto, por enquanto – tocar sax, me parece que a comparação foi, como dizem os ‘meio intelectuais’, a nível de estilo. Se bem que do jeito que ele anda rechonchudo, eu devo ser, literalmente, meio Veríssimo… Merda. Como era doce a minha ilusão… Acho que vou dar uma engordada e perguntar pra pessoa que me falou isso: ‘E aí, cara, será que eu sou, assim, sei lá, meio Veríssimo?’. Por via das dúvidas eu vou levar meu sax e me fingir de tímido. Nunca se sabe.