Eu acho o patriotismo por si só uma coisa idiota. É meio estranho se orgulhar de uma coisa sobre a qual você não teve a menor influência. Mas ou menos como se orgulhar de ser preto, branco, judeu ou de ter o dedo anelar maior do que o indicador. Partindo desse princípio, vou além: o Brasil é um país de merda e o brasileiro é um povinho de merda. Povinho cínico, metido a correto e cheio de não me toques. O mundo inteiro anda assim, mas parece que a tendência nasce em terras tupiniquins. Ontem eu tava vendo umas fotos da Marylin saindo do bolo no Central Park, se não me engano, cantando ´Happy Birthday Mr. President´ pro Kennedy. Além da inveja, claro, imaginei isso nos dias de hoje, mais precisamente no Brasil.

Acompanha: o Aécio (que deve ser um dos próximos presidentes e é meio Kennedy: pegador e bonitão), faz aniversário. Então levam ele pra uma festa surpresa no, digamos, Museu de Arte Moderna, aqui no Rio. Lá está no meio da sala principal um bolo enorme. E ao se aproximar, com sua humildade que lhe é peculiar, jamais se achando digno de uma homenagem como a do Kennedy, eis que soergue-se do bolo ninguém menos que Claudinha Leite. Num vestido a la Marylin, semi-transparente, cantando parabéns a você. Aécinho fica maravilhado, a festa rola, e no dia seguinte as repercussões. As mulheres urram um ´que desrespeito com as mulheres!´. A oposição, ofegante, brada que ´com o cachê dela dava pra alimentar cem famílias. Com a bunda então, nem se fala!´. O brasileiro comum, resmunga algo como ´o povo passando fome, sem médico e na fila do INSS e ele lá, se divertindo. Será que tem as fotos na internet?´. E os atores de teatro infantil e os professores de educação física ronronam, olhando meio de lado um ´que nojo! Urhg! Pensando bem, o aniversário é dele, ele que devia tirar a roupa!´. E eis que a belíssima homenagem se transforma em uma chaga nacional.

Outro exemplo: fui tachado, pra variar, de preconceituoso porque declarei que gosto de mulheres magras. ´Que preconceito, gordinha também é gente!´. O Clodovil também é gente, se tem alguém aí menos preconceituoso que eu. Mas se eu falasse que gostava de gordinhas ia ser ovacionado! ´Que exemplo! Não tem preconceitos!´. Eu gosto de mulher do jeito que eu quiser: gorda, magra, preta, branca, japonesa, ruiva, baixa, alta, manca, o problema é meu. Só me falta essa, só se pode gostar de minoria no Brasil? Imagina a cena:

Mas que tipo de mulher tu curte?

Ah, curto uma gordinha, pretinha, judia, manca, baixinha, gaga e maníaco-depressiva.

O que? Ta de sacanagem? Que que tu tem contra as vesgas?

Ah, vesga é fogo. Na hora da transa, quando ela vira os olhos eu fico tonto de ver aquilo rodando, não consigo acompanhar. Dá enjôo.

Não me faltava mais nada. E antes de falarem mal de mim, eu sou quase preto, quase vesgo e to ficando gago com a idade. É processo na certa.