Mais do que um clichê, a expressão “último romântico” deve ser uma das frases mais usadas em músicas, poemas e outras frescuras literárias desses escritores que não comem ninguém nos últimos anos. Quase tudo já foi escrito sobre isso, e pretendo dar minha contribuição para que essa situação saia do “quase”. Na época em que o Lulu era novinho, no bom sentido, claro, e escreveu a música com esse nome, já eram poucos os românticos, e ele, num ato poético, se achava o último. De lá pra cá o quadro só piorou: não nasceram mais dessa espécie, e os poucos que existiam se cansaram dessa vida de sonetos, lágrimas, flores e amores platônicos. Hoje, existem menos românticos no mundo do que dinossauros na África. Há razões para isso. Muitas.

As mulheres mudaram muito, e hoje em dia um sujeito que tenta puxar a cadeira pra uma mulher periga tomar um tabefe, afinal, “você acha que eu não posso me sentar sozinha?”. As mulheres de hoje não querem caras românticos, que tratem elas com mimos e etcétera. Elas querem homens que rachem a conta, que não liguem no dia seguinte, que fiquem olhando pra bunda delas enquanto elas andam rebolando em direção ao banheiro, que não mandem flores, enfim, que não as tratem como mulheres, por que, afinal de contas, elas querem ser igual aos homens, e homem não liga essas palhaçadas! E ai de você se tentar acordar ela às oito da manhã do dia seguinte com um bouquet de flores e um sonoro bom dia, por que ela vai jogar tudo na sua cabeça e mandar você pra puta que pariu. Mas o que resta a um romântico solteiro fazer? Fundar uma ONG? Se entregar ao lado negro da força?

A única alternativa é esconder essa faceta. E viver como se não fosse nada com você, esquecendo datas de aniversário, pensando: “O que? Duzentos reais num jantar de aniversário? Com essa grana a gente passa uma semana num motel!”, ficando dias sem ligar e depois dizer “ué, não achei que você fosse ficar chateada…”, e ela fica, mas passa rápido, afinal, homem é assim mesmo e é melhor um canalha direto do que um pateta poético. Mas para os que se decidirem por essas sendas, um aviso: não é tarefa das mais fáceis. Você pode viver anos e anos guardando o monstro que existe em você, mas um belo dia, depois de terem feito amor, e ela for à janela fumar um cigarro enquanto discorre sobre seus dotes sexuais, você, sem querer, vai deixar escapar: “E de te amar assim, muito e amiúde, é que um dia em seu peito de repente, hei de morrer de amar mais do que pude”. E aí, amigo, corra pra proteger aquele exemplar de Vinícius que você lia escondido dentro de uma playboy, enquanto dizia o quanto a Maryeva é gostosa.

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