Um dia desses eu ouvi alguém dizer que todos nascemos e crescemos incendiários, mas morremos bombeiros. Pensando bem, tem uma certa lógica nesse pensamento. A minha geração, por exemplo, cresceu botando fogo nos anos oitenta e noventa. Mas hoje em dia, percebemos que o novo milênio é à prova de fogo. Eu saí do segundo grau querendo mudar o mundo, melhorar alguma coisa, acreditando nas pessoas. Hoje, sei que essa merda não vai mudar, que as pessoas são más, egoístas, vaidosas, ingratas, falsas, e várias outras que você se lembrar. Antes que me perguntem se eu sou São Francisco de Assis ou a Madre Teresa, não, eu não to livrando a minha cara.

É foda ver que hoje em dia TODOS os meus amigos homens traem as mulheres/namoradas, e noventa por cento das amigas mulheres também o fazem. É brabo ver gente a quem nós ajudamos sem pensar duas vezes nos virando a cara como se fosse a atitude mais normal do mundo. Não é nada fácil ver babacas ignorando o sentimento de amizade e carinho que algumas pessoas têm por elas, e só querendo tirar proveito. Mas não se enganem, não to falando de mim. Eu já passei da fase idealista. Já fui assim, não sou mais.

Hoje em dia eu não confio em ninguém, só faço favores pra uns pouquíssimos e raros amigos, não sou bonzinho e legal com quase ninguém, porque sei que na primeira oportunidade eles vão tentar levar vantagem. Vejo acontecer com pessoas ligadas à mim. Principalmente duas pessoas muito queridas, que ainda hoje tentam ser incendiários e acham que as pessoas são legais e boas, e que essa merda lá fora vai mudar. Desculpem, mas não, não vai. Vocês dois me perdoem se minhas previsões e adivinhações pessimistas sempre se concretizam. Eu sempre torço pra estar errado. Juro.

Mas raramente eu to errado nisso. As pessoas são iguais, cometem os mesmos erros há anos, e se, com os anos vocês continuam tentando manter a fé nelas, eu me tornei um pessimista, e não me espanto mais com isso. Quer dizer, quase não me espanto. Me perdoem se me exalto quando parto em defesa de vocês, mas me dá um ódio irracional ver as pessoas fazerem isso com vocês. Apesar de praticante de artes marciais há quinze anos, não sou adepto da violência, mas uma coisa vocês têm que concordar: as pessoas esquecem e passam por cima de sentimentos como amor, amizade, gratidão ou fidelidade. Mas medo, ninguém passa por cima. Então, também me perdoem se às vezes sou duro com as pessoas, e pareço não ter coração. Tenho, mas faço isso para mantê-lo a salvo.

Felizmente vocês não pensam como eu, afinal, o mundo precisa de gente como vocês. Eu preciso de pessoas como vocês por perto. O que não me deixa menos indignado ao ver certas atitudes. Muito menos tira minha vontade louca de pegar uns pelos cabelos, dar umas cotoveladas nos cornos, quebrar uns dedos e queimar uns antebraços com cigarro pra ver se eles aprendem a nunca mais machucar gente como vocês. Com tanta gente como eu no mundo, porque eles escolhem logo vocês?

Não escondo de ninguém que sou um sujeito grosseiro, mau humorado, rancoroso, vingativo e super-protetor. Mas não admito ingratidão e traição, tanto amorosas quanto em relação à amizade. Ainda mais com gente como vocês. Mas no fim não quero que vocês fiquem como eu, secos, sem fé e rancorosos. Só queria que vocês entendessem que todo mundo é capaz de tudo. Amigo, primo, pai, mão, namorado, mendigo, chefe, todo mundo. Não existe isso de “fulano nunca faria isso”, ou “ela nunca ia fazer isso comigo”. Me desculpem, mas fariam sim. Todo mundo é capaz de tudo. Não se trata de, como eu, atirar primeiro e perguntar depois, mas de perguntar com a mão no gatilho. Como diz o velho ditado, “acolha um cão de rua, dê-lhe de comer e ele não o morderá; eis a diferença entre um cão e um homem”. Por isso prefiro cachorros. Sem mais.

No caminho, com Maiakovski


Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

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