Não sei quanto a vocês, mas eu não tenho a menor personalidade. Até propaganda de laxante me influencia. Eu vejo “Congo” e já quero ir pra África e criar um gorila no meu apartamento. Sempre fui assim. Eu morro de inveja das pessoas que sempre quiseram ser alguma coisa quando crescessem. Meus amiguinhos queriam ser médicos, advogados, dançarinas do Mc Créu ou, os que gostavam de criancinhas, queriam ser padres. Eu não. Eu queria ser o que tinha visto do dia anterior na TV. Se tivesse passado Rambo, eu queria ser militar. Se tivesse  passado algum Woody Allen, eu queria ser escritor. Se tivesse passado Dirty Dancing, eu queria ser responsável pela programação da Globo, pra parar de passar essa merda. Enfim, o filme mais legal era meu sonho de “ser quando crescer” do dia seguinte.

            E até hoje eu sou meio influenciável. Depois de ver alguns filmes, eu já quis ter araras, macacos, cavalos, furões, cobras; já quis ser jornalista, compositor, músico, policial; já quis morar em tudo que é canto do mundo, no campo, na praia, no espaço, no escambau! Enfim, eu sou um ótimo exemplo pras teses sobre influência do cinema e da TV sobre as pessoas. Nunca matei ninguém nem quis ser professor de dança em estação de esqui, afinal, tem certas coisas que nem a TV conseguiria me convencer.

            Mas quer saber? Deve ser chato isso de sabe o que quer fazer… A criança ta lá, pequenininha. De jalequinho branco, querendo ser médico. Cresce, a vira um adolescente tarado e nerd, que só quer saber de estudar e saber tudo sobre doença. Entra pra faculdade e durante não sei quantos anos ninguém vê os cornos do sujeito, de tanto que estuda. Aí, anos e anos depois, ele vira o que? Um Médico! Que chatice! O sujeito já sabia disso há vinte anos! Cadê a emoção? Cadê a dúvida que faz a gente pensar “Peraí! Mas eu posso virar arqueólogo, ir pra África, comprar um chicote, um chapéu e uma roupa cáqui e procurar as minas do Rei Salomão. Vai que eu encontro…”. Cadê? Assim é muito melhor, um dia querer ter sido astronauta e no outro cowboy – mas sem a calça apertadinha. No fim a gente não compra uma jibóia nem vai pra china nem vira pára-quedista nem entra pra Legião Estrangeira. Mas com certeza foi muito mais divertido!

Anúncios