Sendo eu um incréu, adjetivo que significa “quem não tem credo”, e não “quem não come ninguém”, como o libidinoso leitor pensou, é bem difícil discorrer ou sequer pensar sobre vida após a morte. Se bem que nestes tempos em que nego tá vendendo o almoço prá comprar a janta, onde tem gente latindo no quintal prá economizar cachorro, onde o vizinho faz churrasco e a gente passa o pão na fumaça, enfim, em tempos árduos como esses, o que deve ter de neguinho passando a acreditar num lugar melhor só pra poder ir prá algum lugar onde não tenha que pagar dívida, né brincadeira não.

            A máxima concessão que eu faço à crença da vida após a morte é de que talvez as pessoas voltem de alguma maneira. Reencarnação, né? Mesmo assim tenho lá minhas reservas… É deveras difícil imaginar um paraíso onde John Lennon discute filosofia com Platão, pedindo silêncio a Ghandi, Ricardo Coração de Leão e Elvis, que insistem em cantarolar “Stairway to heaven”, enquanto Joana D’Arc tem um particular com O Homem, numa intimidade de amigos de longa data. Isso tudo enquanto seguranças contêm a multidão de fãs atrás de autógrafos do lado de fora da área VIP do paraíso.

            Além do que, é algo sobre o que não vai fazer muita diferença ter uma opinião formada, por que, quando chegar a hora, o que vai acontecer independe do que você acha ou deixa de achar. Você pode ter sido um ateu inveterado por toda a sua vida, e mesmo assim, quando morrer, se estiver errado, vai ser agraciado(?) com a paz eterna ou ser castigado com uma bela estada nas profundezas. E ainda que você tenha seguido à risca os mandamentos durante toda a sua passagem por aqui, quando você morrer, caso esteja errado e exista reencarnação, você tem tantas chances quanto eu de voltar como presidente do fã-clube do Belo boys ou como massagista da Gisele Bündchen.

            O que quer te tenha do lado de lá, deve ser muito bom, por que, apesar de alguns eventuais contatos ninguém nunca voltou prá reclamar. O que me obriga a pensar o mesmo do inferno. 

Anúncios