A frase aí de cima é uma praga antiga, que eu rogo aos que se irritam ao ter que repetir as coisas pra mim dez vezes, aos que se ofendem quando esqueço aniversários e outras datas, e, por fim, aos que me chamam de “irritadinho”, “gagá” e “esclerosado”. A praga consiste em eu desejar que, num belo domingo de sol lá fora, essas pessoas acordem e vivam, durante um dia, como se estivessem dentro da mente de um hiperativo com Déficit de Atenção. O suicídio viria antes da hora do almoço. Antes de continuar, uma importante nota de pé de página: por hiperativo não entendem como “hiper-legal” ou “hiper-fashion”. Por hiperativo entenda-se clinicamente diagnosticado e mentalmente fodido. Então, dizia eu, o suicídio viria antes do almoço.

            Quem ta de fora pode achar que é fácil de acostumar a ser assim, ou que é até bonitinho. Ledo e Ivo engano. Não é fácil, nem rápido, muito menos bonitinho. Sabe quando você está devendo ao mundo inteiro, perdeu o empregou, a mulher te largou pelo cara que instalou sua internet sem fio, a sua internet não funciona mais porque o cara que instalou ela fugiu com a sua mulher, seu celular caiu na privada, sua TV a cabo ta fora do ar, você quase quebrou o dedinho do pé tropeçando num fio que o fdp do cara da internet deixou no meio da casa, e pra completar sua senha do banco não entra e você só tem sete reais pra passar um feriadão? Então, como ia estar a sua cabeça? Pois bem, bem vindo ao clube. A nossa é assim todo dia, o tempo todo.

            Não é nada fácil. Se você me vê aqui, agora, ao computador escrevendo isso, não se iluda com a minha falsa quietude: eu to escrevendo, ouvindo uma mesa redonda na TV, conversando com três pessoas no MSN, lendo um jornal que ta aberto na minha frente, fazendo um plano de negócios, e isso sem falar que to pensando no texto, no negócio do plano, na namorada que ainda não acordou, na namorada que vem morar em Niterói em uns meses, no trabalho que ainda não pintou e pensando em outro texto que eu acabei abrindo o Word e escrevendo junto com esse, pra não perder o fio da meada. Bonitinho? Queria ver se fosse você. No fim eu to chamando um pelo nome do outro, escrevendo o texto na janela do MSN e escrevendo no texto o que eu ouvi na TV.

           E isso é uma rotina. É assim escrevendo, lendo, almoçando, no banho, viajando… Aliás, a melhor – ou pior – experiência do mundo pra gente é viajar, engarrafamento então! Não precisamos de livros, mp3 nem biscoitinho. Nossa profícua mente nos fornece todo o entretenimento necessário. E você jura que vai dormir. Em dez minutos de viagem a gente já se pega pensando em três diálogos imaginários, dois textos, pensamentos sobre notícias atuais e as trinta coisas que você quer fazer no fim de semana, isso sem falar que você já tentou adivinhar coisas sobre a vida de todas as cinqüenta e três outras pessoas que estão no ônibus, e já leu até o selo de proteção da porta do ônibus.

            Então, minha praga é braba. Um dia você, que acha que eu falo demais ou falo muito rápido, um dia vai acordar assim. E vai demorar três horas pra sair da cama, e quando sair vai levar quarenta minutos pra chegar ao banheiro, e no caminho vai tropeçar, distraído pensando em como você vai voltar do banheiro pro quarto e o que vai fazer quando chegar lá. E depois vai chamar sua namorada pelo nome da empregada, ligar pro seu pai achando que ta ligando pra namorada e comentar no meu texto quando na verdade queria comentar a previsão do seu signo no site de astrologia que você entra todo dia, e ainda por cima vai reenviar pra sua namorada, sem querer, aquele email que sua ex te mandou que você tava até pensando em fazer um roteiro de pornô leve em cima dele de tão criativo. Aí você vai ver que hiperatividade na cabeça dos outros é refresco…

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