Rapaz, mas é impressionante! Se eu conseguisse ficar quarenta dias sem sexo, quarenta dias sem saber notícias do Fluminense e quarenta dias sem tomar mineirinho e, Deus me livre desse triste destino, quarenta dias sem o Playboy Channel – se eu conseguisse tudo isso – juro pra vocês que me inscrevia pro próximo Big Brother. Há algumas características que te enviam à fila de favoritos pra entrar na casa: a pessoa há de ser gostosa – se mulher -, e marombeiro – se homem-, palhaço, babaca, ex-miss, pobre, preto (negro, se você é politicamente hipócrita), roceiro, bobo-de-bom-coração, malandrão, puxa-saco do malandrão, semi-analfabeto, esquisito, magrelo de óculos,pseudo-intelectual, gay ou playboy-tatuado-que-quer-comer-todas-as-mulheres-do-programa. De todas essas eu sou palhaço, babaca, quase preto e quase pobre, esquisito e magrelo de lente, mas boto um par de óculos pra ficar com cara de nerd.

Falar, sou favorito ou não sou? Só perco pra alguma gostosa que bolinar ou for bolinada debaixo do edredon, e pro seu então parceiro de edredon. Mas o que motivou tamanho desapego de bens intelectuais e morais? Seguinte: eu nunca tinha visto nem um programa inteiro desse novo BBB. Via umas manchetes num site, uma notícia em outro ou um comentário esporádico quase sempre todo santo dia da namorada, que todo dia pouco antes das onze da noite me larga falando sozinho pra ver essa joça. Aí, concluindo, desempregado, coisa e tal, não paguei a TV a cabo e cortaram. Tô tendo que ver TV aberta mesmo. E eis que deixei na Globo, e assisti a um programa inteiro hoje. E rapaz, pela terceira vez, é I-M-P-R-E-S-S-I-O-N-A-N-T-E.

É, pela quarta vez, impressionante como em um ambiente como esse, em circunstâncias que só quem ta lá vai saber como é, qualquer coisa ganha destaque. E qualquer coisa ganha importância e autoridade. Falo especificamente do ursão-psiquiatra-que-não-é-psiquiatra-e-“terapia na minha mão é dorreal!” de plantão. O sujeito vai conversar ou discutir com alguém. Desfoca o olhar, olhando pro horizonte e faz cara de “que merda ter que conversar com gente burra”. Começa a falar tão devagar que se a pessoa tirar um cochilo de meia hora só perde uns artigos e uns pronomes. Aí ele começa a vomitar filosofia de sala de dentista e psicologia de prateleira de “qualquer livro por cinco reais” em livraria de rodoviária. Aí fudeu. Ele pode ter falado a maior baboseira do hemisfério sul que a outra pessoa olha pra ele com uma reverência de quem acabou de ter um texto seu lido pelo próprio Machado de Assis e ouviu um “sentai e vamos falar sobre esse texto…”. É (quinta vez) impressionante!

Ele começa a analisar, falar que a pessoa tem um bom futuro, vai se dar bem na vida, que tem caráter, que ta em dúvida, fica tentando adivinhar o que a pessoa ta pensando… Como se tivesse autoridade pra julgar alguém ou pra fazer uma análise Miojo em alguém. Uma mistura de Paulo Coelho, Mão Dinah, Lair Ribeiro e Leão Lobo. E sabe o pior? Se eu tivesse lá, meu baço ia explodir de tanto que eu ia rir. Ia pedir uns números da loteria ou pra ele fazer meu mapa astral. O que seria, dada a atitude dela, uma reação normal. Mas não. As pessoas escutam, SÉRIAS, e depois param pra pensar naquilo. Choram. Refletem. E ele sai, todo pimpão, se achando o próprio Copperfield depois de atravessar a muralha da China. Impressionante. Sexta. Então, diz aí, ganho ou não ganho se eu entrar? Favas contadas, não tem pra ninguém. Agora com licença que vou começar a ler minhas novas aquisições literárias: “A Arte da Guerra para Reality Shows”, e “Quem mexeu no meu edredon: frases feitas, expressões faciais caricatas, vídeo-aula de como desmunhecar de maneira convincente e tudo o que você precisa para se consagrar em um Reality Show. Barbaba.

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