Até uns meses atrás, a maior diferença de idade de mim pra uma mulher em um relacionamento havia sido de cinco anos. E eu achava cinco anos um abismo, uma enormidade. Nas festas de família eu achava que o correto seria ir me sentar à mesa dos pais e tios e ficar olhando pros mais jovens com aquela cara de desaprovação típica de quem já nasceu com trinta anos e nunca foi jovem. Era uma merda: eu ficava deslocado com os amigos recém-universitários dela, não tinha paciência pra explicar coisas que a gente não tem paciência pra aprender quando se tem dezenove anos, enfim, era chato. Mas aí, o destino se encarregou de me livrar – e livrá-la – desse fardo cronológico. Ufa.

            O tempo passou, passou, caso vai, caso vem, comecei a namorar de novo. E passada a euforia inicial, sentei aqui no computador e demorei a acreditar. Se eu já achava cinco anos uma barbaridade, o que vocês me diriam dos agora dez – DEZ – anos de diferença pra atual namorada? Se antes eu achava que meu lugar era com os pais e tios, agora avós e avôs são meus companheiros de lembranças longínquas e críticas a essa juventude perdida de hoje em dia. E pra quem já achava uma merda os amigos recém-universitários, o que vocês acham que agora ouvir falar de matemática, química e física na roda de conversa? E vestibular? E não poder ia à boate porque tal amiga não entra????

            Então, hermano, se você é um cara como eu era, poupe-se: não namore uma mulher mais de três anos – estourando – mais nova. Se você é como eu e quer continuar assim, caia fora. Enfim, se você é um sujeito babaca, arrogante e prepotente como eu era, não namore uma menina como a minha. Se você é um cara que acha que sabe tudo porque é uns anos mais velho, se você acha ridículo e idiota manifestações públicas e exageradas de afeto – do jeito que eu era – desista. Fuja disso como o diabo foge da cruz. Jamais, eu disse JAMAIS, namore uma menina linda e moleca que te faz lembrar o tempo todo que você tem quase trinta, e não quase setenta. Atravesse a rua ao avistar uma menina de trancinhas e tênis rosa nos pés. Se não quiser perder toda a babaquice, a empáfia e seu jeito de olhar de cima pra baixo pras pessoas mais novas, nunca se deixe envolver se, ao invés de vir com um carro do ano, ela vem de bicicleta, e se ao invés de um filme francês que você gosta e não entende nada, ela preferir assistir à mais nova comédia romântica blockbuster da moda.

            Porque se isso acontecer, você já era. Vai passar a se sentir dez anos mais jovem perto dela, e vai esquecer, por uns instantes, que você ta sem emprego, que suas contas se acumulam em cima da escrivaninha ou que todos os seus amigos estão estabilizados, casados e bem empregados, enquanto você, idiotamente, insiste em querer viver de fazer o que gosta, e se veste como se REALMENTE fosse dez anos mais jovem. Se a camiseta com uma bailarina desenhada e a voz imitando criança dizendo que te ama te conquistarem, já era. Você vai deixar de ser aquele cara sisudo, que almoça economia e arrota política internacional na hora do lanche e acha idiota discutir sobre televisão, ver desenho da Disney ou ligar pra ela da porta da casa dela, fingindo que ta em outra cidade pra fazer surpresa.

            É isso. Conselho de coração, não arrisque! Caia fora o quanto antes. Porque, sinceramente, a única coisa que você vai conseguir entrando numa fria dessas é se tornar um sujeito mais afável, alegre, esperançoso, animado, confiante, e muito menos arrogante, sisudo, prepotente e babaca. Nada mais. Eu gostava de ser assim. Mas como não tive quem me aconselhasse – como você tem a mim, não precisa agradecer… -, entrei nessa furada e arrumei uma bailarina dez anos mais nova que anda dançando pela rua, me obriga a assistir um milhão de vídeos de ballet todos iguais uns aos outros (e ela chora em todos eles!) e sai pulando aos berros pra cima da poltrona se uma simples borboleta chega perto. Então, escute meu conselho ao pé d´ouvido: se você quer continuar a ser um babaca com quase trinta anos que acha que vai fazer oitenta semana que vem e que acha que já viu de tudo nessa vida, como eu era, fuja disso. Vai que um dia quando você tiver sentado no chão sujando a calça com as crianças brincando de fazer arte abstrata com tinta guache, você sinta falta de se sentar com os pais e falar mal desses idiotas que não cresceram e ficam por aí rolando no chão com criança nojenta sujando a roupa toda… É melhor não arriscar.      

Anúncios