Acompanhem o raciocínio: você é um adolescente na década de oitenta. Ia pra escola cantarolando o “pam-pa-ra-raaaaam, pam-pa-raaammm” da música do Indiana Jones. Você queria usar um chapéu daqueles quando crescesse, mesmo se você fosse dentista. Você tinha uns dez chicotes de brinquedo e ficava fazendo todos eles estalarem que nem nos filmes. Você falava os diálogos dos filmes com os amigos na rua, matava o inglês quando passava um deles na sessão da tarde. Há uns meses você viu o teaser do filme novo do Indie no youtube. Bacaninha, apareces os créditos, o nome do Spielberg e tal. De repente, a música começa: o som do chicote estalando faz você se lembrar das tardes de
TV pulando do sofá pra estante querendo ser o Indiana Jones. E no momento em que a música começa e o chicote estala, aparece ninguém menos que Harrisson Ford. Ele pega o chapéu, sacode a poeira e sai andando. Só isso. Simples assim. Nesse momento, você sente um arrepio que só se compara aos arrepios de cunho, sem trocadilho, sexual. Seus braços se arrepiam de um jeito que parece que você ta no pólo norte! E você pode ver o trailler mil vezes, que o arrepio se repete. Conseguiram alcançar o arrepio? Entenderam o sentimento que trouxe o arrepio? Já sentiram algo assim? Ótimo, então guardem essa descrição aí em cima que daqui a pouco vou usá-la.

Pois então, agora começa o texto de verdade. Escrever é talento ou treino? Uso aqui talento porque a palavra dom teria uma conotação divina, e eu como bom comunista que come criancinhas no café da manhã (e nem sou padre…), não acredito em Deus. Mas e aí? O que vocês acham? Talento? Treino? Iluminação divina? Bom, pra começar, se fosse iluminação divina eu preferia trocar meu dom pelos seis números da mega sena. Mais justo. Não vou fazer média nem ser falso-modesto pra ganhar cafuné. Eu acho – tenho certeza – que é talento. Sem churumelas. Uns mais outros menos, uns pra poesia outros pra fazer blogue, uns fazer teatro e outros pra ganhar dinheiro, mas de qualquer forma, talento.

Pros que acham que é treino, permitam-me uma argumentação muito simples: grosso modo, qualquer um com treino e trabalho duro aprende a escrever, segundo vocês. Então qualquer atividade artística seria assim, bem como o futebol. Eis que surge a minha fantástica tese, já registrada no INPI, e pronta a me deixar milionário e ganhar quadro no Fantástico: se futebol é treino, por que existe o cabeça de área? Se todos treinam igual, todos deveriam ser o Ronaldinho Gaúcho. Será que se o Vampeta começar a treinar dez horas por dia ele vai conseguir dar umas canetas no Denílson? Não, não vai. E se escrever é treino, por que existem os livros de auto-ajuda? Por que o Paulo Coelho não escreve um épico, ou esses gurus que andam por aí não tão escrevendo filmes e revolucionando o cinema brasileiro?

Se o treino fosse mais importante do que o talento, do que o conjunto biológico, as escolas de artes só formariam Rennoirs e Da Vincis, e escrever em agenda ou em blogue faria de qualquer um um Verissimo. Ah, lembrei por que falei do Indiana Jones. Pois então. Certos autores têm esse dom, talento ou algo que o valha, de nos fazer sentir isso. Quem nunca leu uma crônica do Verissimo e sentiu aquele arrepio lá do primeiro parágrafo? Ou um filme do Woody Allen? Ou um poema do Pessoa ou do Drummond, ou uma letra do Vinícius? Será que o treino e o trabalho pesado podem fazer qualquer um nos fazer sentir aquele arrepio do Indiana Jones? Não, não podem. Trabalho ajuda, treino ajuda, mas ter nascido pra coisa, como dizia vovó, é o que te tira da bancada de “3 livros por dez reais” e te manda pra uma seção com o seu próprio nome, enfim, é o que faz as pessoas se arrepiarem com o que você fez com um simples “pam-pa-ra-raaaaam, pam-pa-raaammm”…

Anúncios