Eu to pra falar desse tema há muito tempo. Mas sempre esqueço, outros temas me vêm mais urgentes ou simplesmente adio tanto até não lembrar mais o que eu tava pensando. Porém, os últimos acontecimentos me deram o pé na bunda que faltava pra me empurrar pra frente e desembuchar o assunto. Hoje em dia, com a supermercadização do ensino superior, o problema se agravou. No Brasil a cultura que prevalece é a do estude e seja alguém na vida, não estude e puxe carroça. Calma. Eu acho sensacional o preço das universidades ter baixado, e mais pessoas poderem agora estudar. Porém, isso potencializou um pensamento que eu acho bastante prejudicial. O pensamento exagerado de que somente as profissões que exijam um diploma são profissões dignas.

            Tão me achando exagerado? Se imaginem com dezessete anos. Oquêi, agora se imaginem na mesa do jantar, e o coroa lança a fatídica pergunta: “E aí, Waldysleyzinho, vai fazer faculdade de que?”. Então. Agora, se eu to exagerando mesmo, se imagine falando isso: “Faculdade? Não, pai, eu não vou fazer faculdade. Vou ser a) músico; b) pintor; c) escritor; d) jogador de futebol ou e) Presidente da República”. Então. A não ser que seu pai seja a exceção que confirma a regra, um em cem mil, a resposta pra isso vai ser a) ele vai te dar um soco no estômago; b) ele vai te dar um soco na cara; c) ele vai quebrar uma garrafa na sua cabeça; d) ele vai te botar numa escolinha de futebol ou e) ele vai tirar o sobrenome dele de você, falar que já ta difícil pra quem é formado, imagina pra quem não fez faculdade, fingir que aceitou e comentar com você todas as semanas da sua vida que “você viu, abriu concurso pro Banco do Brasil. Quer fazer não, só por experiência?”.

            E provavelmente, você, escritor, pintor, humorista, jogador de futebol ou político, vai fazer faculdade de administração/direito/comunicação só pra agradar e com medo de ter sua carreira emparedada antes de começar. Já falei isso antes. Se você tem algum talento, finja que não tem e o use como hobby, até começar a ganhar dinheiro com ele. Aí você muda de carreira e vive feliz pra sempre com seu diploma de Geografia debaixo do braço. Ou pode ser que você se apegue ao curso e siga a carreira. Aí o talento realmente vira hobby e você vive mais ou menos feliz pra sempre.

            Mas a culpa não é inteiramente dos pais. A sociedade como um todo não valoriza o trabalho artístico ou não-acadêmico. Aí acontece o que têm acontecido com freqüência nos dias de hoje: um bando de bundões idiotas com MBA, FDA, CCAA e outros nomes bonitos e pomposos com cargos de nomes mais pomposos ganhando salários indecentemente imerecidos só por causa dos seus “títulos”, vomitando jargão e frases de filosofia de programa de fofoca e se achando os reis da cocada preta.

          Mas será que no fim tudo se resume a isso? Não. Eu não me acho menos competente do que um sujeito que abriu um negócio que deu certo por méritos de outros, ou sem querer, e hoje ganha bem berrando empreendedorismos e termos em inglês até pra pagar um filme na locadora ou dando informação na rua. Tudo bem, mais dia menos dia vai aparecer alguém e mostrar que siglas com nove letras em inglês e planilhas de Excell não tornam ninguém competente, e ser chefe não faz de ninguém mais capaz. Muito pelo contrário.

 

Sabe a velha máxima? Quem sabe faz, quem não sabe é chefe? Pois então. Não há nada melhor do que ver um sujeito desses vomitando termos que ele aprendeu na pós “trêsporumreal” na universidade do Seu Manel e saber que ele não tem a menor idéia do que ta falando. Ou vendo que um cabra desses mal sabe redigir um e-mail ou escrever um simples parágrafo. Saber que ele leu e não entendeu  nada de Proust, acha Paulo Coelho um escritor sensacional e acha que pedir relatórios de quantos centímetros a empregada limpou por minuto no último dia vai melhorar o desempenho dela. Aliás, lembrei de uma piada do caralho sobre isso. Um sujeito queria provar a relação entre as patas da aranha e seu sistema auditivo. Então ele adestra a aranha, e, ao seu comando, ela agora deita e pula. No primeiro dia, ele arranca uma pata da aranha, e dá o comando e Zás! Ela dá um pulo enorme. Ele então arranca a segunda e lasca o comando. Um pulo sensacional. E vai arrancando, a terceira, a quarta, e a danada da aranha sempre pulando. Eis que ele arranca a oitava pata, deixando a aranha, tadinha, só com um corpinho se arrastando no chão. Ele então dá o comando e nada. Dá de novo e necas, ela fica lá, se contorcendo, sem conseguir nem se mexer. Vendo a aranha cotoco se contorcendo, ele chega à magnífica conclusão de que aranhas sem todas as patas ficam surdas! Pois então, não é legal ver um Gerente-de-Projetos-Aleatórios-de-Gereciamento-de-Papel-Toalha achando que a aranha ficou surda porque ele arrancou as oito patas dela? Como eu sempre digo: a gente ganha pouco mas se diverte um bocado…  

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