* Texto escrito pelo Lufe e ligeiramente modificado por mim. O que tiver ruim, fui eu. Mas o sentimento e a situação são mútuos. Abracetas.

A globalização veio nos brindar com um novo modelo de se gerenciar a mão de obra. Esse modelo impôs a algumas empresas a prática pouco comum de adotar dois ou mais chefes para cada trabalhador. Onde nós trabalhamos, por exemplo, uma parceria nos apresentou o desafio de responder agora a uns seis chefes diferentes, em estados diferentes, países diferentes, cores diferentes, religiões diferentes, e até sexos diferentes, o que nos tem proporcionado alguns momentos, no mínimo, bem divertidos. Temos chefe carioca, paulista, paraíba, judeu, preto, branco, homem, mulher, bicha, no armário, cristão, budista, macumbeiro, enfim, tem chefe pra tudo que é gosto.

– Por que você fez isso deste jeito? – pergunta um dos chefes

– Porque o chefe pediu, chefe. – respondi

– Eu não pedi nada e não precisa falar na terceira pessoa.

– Não, o chefe em questão é o outro, o de Belém. Ele pediu um texto descontraído, meio que brincando com esse negócio de ser chefe nos dias atuais. Uma maneira jocosa de tratar o poder atualmente, sacou?

– Não saquei e não gostei. Pode refazer tudo. E vê se agora coloca a cabeça no lugar e avalia antes quem é o nosso cliente. A empresa Cafundós do Judas é altamente retrógrada, tradicional, careta, jamais permitiria um texto assim em seu site. Aliás já foi um custo convencer os caras de que ter um site era importante no desenvolvimento estratégico da empresa. Você acredita que nenhum dos diretores de lá tem celular? Como é que pode?

– Inacreditável, chefe. Vou refazer o texto e já mando de volta por email.

Duas horas depois toca o telefone. É o outro chefe, o que achou genial o texto da primeira fornada, aquele “pra frente”, “ousado”, “moderno”.

– Sim? Em que podemos ser úteis?

– Pule as introduções, meu caro. O que houve com o texto que você fez? Você mudou tudo, ficou horrível, péssimo, quadrado, ruim, antiquado, sem sal, o que aconteceu? Acho que você está precisando de férias…

– Sabe o que é chefe, é que o chefe aqui pediu para mudar a linha, ele disse que a empresa é do tipo conservadora, não entenderia a proposta…

– Não precisa falar na terceira pessoa! Deixa eu ver se eu entendi… Por causa de um pedido inconsequente, sem a menor justificativa plausível, você muda um texto genial por uma porcaria dessas que eu estou lendo agora aqui no meu MAC?

– Obrigado pelo genial, mas não tava falando do senhor. Tava falando do chefe Budista.

– Pois agora ficou uma merda! Onde é que nós queremos chegar como empresa? Precisamos mostrar isso aos nossos clientes. Precisamos demonstrar entrosamento, força de conjunto, velocidade e originalidade, capacidade técnica de resolver problemas urgentes em um mínimo de tempo possível. Mas desse jeito, tá difícil.

– Mas eu só fiz o que o chefe pediu…

– Não fez o que eu pedi! E agora? Você, por acaso, não tem uma opinião formada sobre o assunto? Você não pode ser um boneco, uma marionete, uma vaquinha de presépio, que todos mandam você fazer alguma coisa e você vai lá e faz de qualquer maneira. Onde está a sua opinião? Por acaso, falei alguma barbaridade? Estou exigindo algo muito complicado?

– Posso consultar o meu chefe para responder?

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