“Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida, mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro. Ou às vezes encontram e por não prestarem atenção nesses sinais, deixam o amor passar, sem deixá-lo acontecer verdadeiramente. É o livre-arbítrio. Por isso preste atenção nos sinais, não deixe que as loucuras do dia a dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o amor.” Drummond sabia das coisas. A Paixão pode acontecer centenas de vezes com alguém durante a vida. Não que seja um sentimento menor, que não tenha valor, não é essa a questão. A grande questão aqui é a seguinte: a paixão não é, necessariamente, o primeiro momento do amor.

Já me apaixonei algumas vezes. Algumas várias. Só uma dessas paixões se tornou amor. Se tornou não, sempre foi. Acho curioso pessoas que amam mais de uma pessoa ao mesmo tempo, ou que dizem que amam quando sequer estão apaixonadas. A paixão é a dor de uma picada de aranha: dói muito, arde, incomoda, pode até demorar a passar, mas passa. Pode ser insuportavelmente forte, mas uma hora passa. O amor é o veneno da aranha: dependendo da situação, pode deixar seqüelas para sempre. E geralmente deixa.

            É difícil se livrar de um amor, quando não impossível. Para a paixão, uma viagem, um cd bacana ou uma namorada nova já se fazem suficientes. A paixão só nos ocupa a mente nos momentos de solidão. Quando estamos entretidos com algo ela não nos assola o pensamento. Pelo menos não o tempo todo. Já o amor não nos deixa esquecê-lo um só momento: o que quer que você faça, onde quer que você esteja, você vai estar pensando nele. A paixão é arrebatadora: chega de arroubo e nos obriga a baixar a guarda, e num só golpe nos lança ao chão. Ela nunca é sutil. A paixão é um macaco numa loja de cristais. O amor não, o amor tem a calma dos sábios, a paciência de quem sabe o que está fazendo e a eficácia da água mole. Chega de mansinho e, como diria o poeta, não mais que de repente nos vemos em seus domínios. Ele se apodera de nós aos poucos, transformando cada detalhe, cada maneira de levar o garfo à boca, cada sorriso bobo, cada carinho se tornar para nós algo com o que sempre sonhamos mas nem desconfiávamos. Já vi casos de amor à primeira vista, claro, mas muitos deles foram paixões mal-interpretadas. Os outros eu realmente não sei explicar. Se soubesse eu estaria ganhando milhões escrevendo livros de auto-ajuda pelo mundo afora.

Mas o que faz as pessoas confundirem tanto as duas coisas? Já encontrei as mais variadas respostas para essa pergunta. Talvez a ânsia de encontrar o amor, talvez o medo da solidão, tentando prender o ser amado ou não com tal sentimento. Como você pode me deixar se eu te amava tanto? Talvez a carência afetiva, tentando encontrar reciprocidade em tal gesto. Afinal, quem nunca teve vontade de responder “eu também” quando alguém disse que te amava, mesmo que não fosse verdade? Ou então as pessoas simplesmente confundem mesmo, ora bolas! Quem nunca amou não pode saber como é. É aquela velha história de não gostar de jiló sem nunca ter comido. Você acha que sabe o que é, mas não sabe. Até acha que deve ter gosto de mato, de alface, sei lá!, mas não sabe com certeza. Nem precisa, parece mato mesmo! Pode acontecer o mesmo nesses casos. As pessoas sentem o gosto de alface e, como nunca comeram jiló, acham que deve ser a mesma coisa. E assumem isso como verdade. Até o dia em que comerem jiló de verdade. Por que eu garanto, senhoras e senhores: quem come jiló uma vez, mesmo que não queira repetir nunca mais, mesmo tendo se tornado fã incondicional de tal iguaria, vai saber na hora que é jiló. Nunca mais vai achar que tem gosto de alface. E pior, vai ficar com o gosto na boca pro resto da vida.

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