Meu nome é Leonardo, tenho 27 e estou há três horas sem celular. E contando. Pois é, há três dias eu tinha duas linhas de operadores diferentes. Agora não tenho nenhuma. Cancelei as duas, e meu ódio por operadores de celular é tão grande que não consigo pensar em comprar outro celular. Hoje à noite vou sonhar que estou entrando em uma sala de telemarketing cheia de atendentes de celular, parar na porta, olhar pra eles com aquele sorrisinho assassino do Al Pacino, puxar duas submetralhadoras e matar todo mundo. E depois pegar meu celular e escutar “este número não recebe chamas ou é inexistente”.

Mas agora vou fundar uma ONG em apoio dos excluídos celularmente. Não que exista mais alguém no mundo, mas não vou desistir da luta. Vocês deviam tentar, é uma sensação quase divina. No início você fica meio perdido. Olha pro aparelho vazio e acha que ele vai tocar a qualquer momento. Mas ele não toca. Então você pensa: “porra, e se alguém quer falar urgente comigo uma coisa muito importante?”. Mas ao você se lembra da última vez que alguém precisou falar urgente com você alguma coisa muito importante: nunca.

Passado o desespero inicial, você se lembra da sua infância. De como era a vida quando alguém que queria falar com você ligava pra sua casa e deixava recado. Ou ligava mais tarde. E o mundo não acabava porque você não soube das notícias durante o dia. E as pessoas morriam do mesmo jeito, e sofriam do mesmo jeito, e namoravam do mesmo jeito. E então seu pensamento voa, e pensa que você agora vai poder dormir no ônibus sem ter que prestar atenção no celular, vai poder ir na sala do lado sem ter que ficar preocupado porque seu celular ta sozinho e se tocar ninguém vai escutar. Pensa que ninguém vai encher seu saco pedindo nem falando nada quando você tive de mau humor ou andando na rua pensando na vida, sem querer ser incomodado.

Aí vem a fase do “como assim não tem celular”? aí você explica, fala que operadora de celular é tudo a mesma porcaria, que nenhuma presta, e que você não quer tratado como um idiota por elas, mas não adianta. O celular se tornou um mal necessário. Não ter celular hoje em dia equivale a chegar em uma rodinha de amigos e mandar:

– É, pessoal, tenho que admitir: eu sou um pedófilo. E necrófilo. E mato pombos com arma de chumbinho, jogo papel de bala pela janela do carro e não tenho celular.

-O que??? Caralho, e eu sempre te apoiando esse tempo todo… E você aí… fazendo essa merda… aí… porra, compra logo um! Pombo é nojentão mesmo, e esse negócio de idade não ta com nada…


E as pessoas não cansam nunca de se assustar. Experimenta dizer pro segurança do banco que te pediu pra botar o celular na caixinha do lado da porta que você não tem celular.

– Celular ao lado, por favor.

– Tenho não.

– Celular ao lado, por favor

-Tenho não.

– Rapaz, você quer entrar ou não quer? Bota o raio do celular ali e passa logo!

– Eu disse que não tenho celular, porra!

– Escutaqui, fala baixo! Você que fica aí dando uma de maluco e dizendo que não tem celular e eu que to errado?

– Mas eu não tenho celular mesmo, caralho!!

– Agora chega! Sai da fila, por favor, que você ta tumultuando! Senão vou chamar a polícia!

– Merda, mas eu quero entrar na porra do banco!

– Olha aqui, agora é sério! Sem celular na caixinha, não entra!

E durma-se com um barulho desses… Mas compensa. Não ter que ficar que nem um idiota respondendo ao “aqui é o novo atendimento eletrônico na Joça Telefonia. Fale o que deseja”, e você fica que nem um idiota na rua falando com voz de robô: “ can-ce-lar a as-si-na-tu-ra”, e ouvir de volta “entendi. O senhor deseja aumentar seu plano e continuar com a nossa operadora por mais treze anos”. Mas no fundo tudo o que você queria era falar “quero que você vá pra puta que te pariu, sua filha de uma puta! Vai tomar no cu, piranha desgraçada”! isso sem falar em nunca mais ouvir “senhor Leonardo? Tenho algumas informações para lhe passar, o senhor poderia me confirmar o tamanho do seu pênis, o número do sutiã da sua namorada a o número de palavrões que o senhor falou aí enquanto tocava a musiquinha”?

Certas coisas não tem preço. E poder rir da cara dos otários falando nos celulares todos pimpões por aí a fora, definitivamente, não há dinheiro no mundo que pague. E é o que eu vou fazer! Mas depressinha, até aceitar a próxima oferta mirabolante de alguma operadora que me convencer que com eles vai ser diferente. Aí senta que lá vem história…

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