Da mesma maneira que em alguns momentos nada substitui um bom palavrão, há oportunidades em que uma mentirinha se faz por demais necessária. Não, minha senhora, não vou fazer apologia à mentirada deslavada e desenfreada, mesmo que rimada, longe de mim. Apesar de ser um quase advogado e quase publicitário – o que me qualifica duplamente a falar sobre o assunto – o ceerne da questão não é esse. Eu falo das pequenas mentiras que tornam nossa vida possível, suportável e mantém nossas mulheres dentro dos limites da sanidade e longe dos consultórios dos analistas. Como? Você não mente? Você acha que sinceridade cem por cento do tempo é o caminho certo? Você nunca mentiu pros seus próximos? Amigão, puxa uma cadeira por que a conversa vai ser longa.

Thoreau dizia que um homem livre é aquele que pode recusar um convite para jantar sem ter que inventar uma desculpa. Faço aqui uma mea culpa. Não sou um homem livre. Se alguém me convida para um jantar ou algo assim, e eu simplesmente não quero ir, eu jamais vou dizer isso na cara do sujeito. Ou da sujeita, se for o caso. Vou logo inventar um trabalho de última hora pra algum cliente desesperado, um mal súbito ou uma dor crônica em algum lugar. Se eu já falei isso pra você, provavelmente era mentira. Me desculpem. Na próxima prometo ser mais criativo. E se algum amigo seu – amigão mesmo – te chama pra fazer alguma coisa e você prefere ficar em casa jogando vídeo-game, você – responda sinceramente – vai chegar pra ele e falar, ô fulano, nem dá pra sair hoje não. Eu sei que você quer conversar, mas eu acabei de comprar mortal kombat 16 Ultimate Chalenge Maximum Bloody Match. Fica pra próxima…? Você falaria? Nem eu…

Agora imagina a seguinte cena: você chegou na casa da sua namorada às sete e meia. Vocês marcaram oito. Ela tem meia hora pra se arrumar. Ela veste simplesmente todas as roupas que estavam dentro do armário, em todas as combinações possíveis de saias, blusas, calças, colares, brincos, sapatos sandálias. Isso dá mais possibilidades do que combinação de possíveis números da Mega-Sena. Lá pras onze, ela vem com a primeira roupa que vestiu ainda às sete e quarenta e cinco. Você faz uma leve cara de enfado. Nem tão expressiva que não a jogue numa depressão profunda pela sua impaciência e falta de sensibilidade, nem tão branda que a jogue na mesma depressão profunda devido à sua falta de interesse. Então, como eu dizia, ela vem, e lhe pergunta como se o destino de toda a raça humana dependesse disso, o que você achou desse brinco, amor? Acho que vou trocar de roupa, não gostei. O que você acha? Faça uma blitz mental, uma dura na consciência, e me responda: você arriscaria dizer que não gostou do brinco e esperar mais duas horas até ela trocar a roupa toda por causa do tal brinco pra, no final, tirar o brinco por que não tá combinando com a roupa? Por mim, podia até ser uma embalagem de toddynho pintada de rosa fluorescente com a foto do Caubi Peixoto pendurada na orelha que eu ia achar o máximo à essa altura do campeonato…

Isso sem falar em mandar sua mãe dizer que você não está se o cara da TV a cabo ligar, inventar aquela dor de cabeça na casa da namorada só pra ganhar um cafuné, Quem? Eu olhando pros peitos dela? Claro que não, amor! Eu tava olhando pro colar dela. Bonito, né?! Ter que falar que aquela amiga gostosíssima de vocês é uma baranga só por que sua namorada cismou que ela tava te olhando. Ou até a clássica “ não, amor. Você só faz se você quiser. Por mim não faz muita diferença não…”. E aí?! Você nunca mentiu mesmo? Não mente pelo menos uma vez por semana? Continua achando que a verdade vos libertará? Então me desculpe, pare de ler agora, por que eu escrevo pra humanos comuns, gente normal, e não pro Capitão América ou o Superman. Mas se você se identificou, junte-se à nós! Livre-se dos grilhões opressores da verdade! Admita que aquele brinco verde é horroroso, mas você nunca vai falar isso senão ela além de entrar em depressão vai ficar mais três horas pra combinar alguma coisa com ele! Assuma que não!, você não vai ao churrasco dos amigos por que sua namorada quer ficar em casa assistindo Ghost! Redima-se enquanto há tempo. Até por que, ninguém nunca vai saber mesmo. E citando mais um célebre mentiroso, Mark Twain: “prefiro dizer sete mentiras à ter que dar uma explicação…”

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