Eu queria ter nascido na Idade Média. Em grande parte só pra poder andar com uma espada por aí, arrancando a cabeça dos vilões, dos flanelinhas de carruagens e das atendentes de telemarketing. Mas essa recente reflexão não foi motivada por isso, afinal, se eu quisesse mesmo externar minha revolta, era mais fácil ter nascido nos EUA, aí eu comprava um fuzil, entrava numa escola americana e metralhava todo mundo, como um jovem americano normal. Mas o que mais me apetece na idéia de ter nascido à época das brigas nas tavernas e da poligamia legalizada é a singela e invejada simplicidade da vida das pessoas daquela época.

Tudo era muito mais fácil. Pra conquistar uma mulher era só dar uns sopapos no primeiro magricelas que passasse na sua frente e fazer aquela brincadeira de bater a faca entre os dedos que qualquer gata medieval logo se derretia. Muito mais fácil. E se você fosse o magriço em questão, era só puxar um punhado de moedas de ouro do bolso e pagar uma rodada de bebidas para todos e ela já tava no papo. Mas se você era magrelo e pobre ta querendo muito, era a idade média mas não era o paraíso islâmico com 40 virgens… Tudo muito mais simples, não concordam!? Nada de uma hora pra se maquiar ou duas horas fazendo escova. Nada de ficar fazendo charme e não te atender no dia seguinte nem de te obrigar a ir a um show do Sowetto ou do Caetano.

Ninguém te mandava emails oferecendo serviços para aumentar seu bilau nem te ligava domingo duas da tarde pra oferecer curso de inglês. A operadora não te cobrava ligações feitas pra Taiwan ou pro Acre que vieram erradas na sua conta. Era um mundo realmente mundo estranho. Quando as pessoas queriam falar com alguém elas falavam, quando queriam escrever elas escreviam, e quando queriam namorar elas se encontravam e namoravam. Sem telefone, e-mails nem conversas pela webcam. Não existiam essas viadagens de síndrome do pânico, TPM, gola rolê ou “esmalte masculino fortalecedor para as unhas”. Era um mundo mais macho, mais autêntico, mais real.

Não tinha essas bicholas escrevendo em blogues nem existia a Telemar. Eu ia ser milionário se não tivesse que pagar duas contas de celular, TV por assinatura, internet e não tivesse cartão de crédito. Isso sem falar naquelas mulheres andando a cavalo pra lá e pra cá de roupas mínimas de couro sedentas por aventura e emoção. Bons tempos. Ah se eu pego o filho da puta que inventou a pólvora. Foi ela que começou tudo isso, aí vieram armas, carros, rádio, TV, a Oi, o Flamengo e a roupa íntima feminina. Nenhum progresso. Nenhum. A não ser talvez pela pílula anticoncepcional. E pela Gisele Bündchen. Mas não seria bem melhor a Gisele de roupinha de couro amarrada a um cavalo prestes a ser arrastada clamando pela sua ajuda e ávida por recompensá-lo depois do salvamento? Enfim, nenhum progresso…

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