Após de conhecerem através da então namorada dele, logo ficaram amigos. Através da internet, viraram confidentes daqueles que a gente conta tudo o que não contra nem pros amigos mais próximos, mas que depois, acabam passando de confidentes a amigos. Nesse caso, mais que amigos. Na época ela ouvia o quanto ele era apaixonado pela então namorada, e achava ale o máximo – romântico e apaixonado – e ele ouvia suas confidências sobre um caso que ela tinha na época, caso esse que a fazia sofrer noite e dia. Assim foi por muito tempo, e nesse meio tempo, ela já estava quase curada da dor anterior, e ele acabara de levar um belo pé na bunda, e estava numa fossa daquelas.

            Viraram mais amigos e confidentes do que eram antes, agora sendo também válvula de escape um para os problemas do outro. Queriam se falar o dia todo e um dia se encontraram. E aí, sabe como são essas coisas, acabaram ficando. Ele não queria nada sério, nem com ela nem com ninguém, por um bom tempo. Uns trinta anos, talvez… E ela, tava curtindo o momento. Continuaram se falando – inclusive falavam um para o outro sobre outras pessoas. Ficaram uma segunda vez. Aí começou a complicar.

            Um belo dia ele atinou e pensou “porra, se ela é a pessoa que eu mais gosto de conversar e estar junto, falo com ela todo dia, é a primeira pra quem eu quero ligar de manhã e a última de noite, o que eu to esperando?”. E começou a amadurecer a idéia. Mas foi aí que ele, no auge da sua arrogância achando que sabia tudo só porque era mais velho, percebeu uma coisa que não havia enxergado por causa dessa sua “super-autoconfiança”: que ela já estava apaixonada por ele, enquanto ele calma e egoisticamente começara agora a pensar no assunto. E ele, burro como não podia deixar de ser, se intimidou. E se não desse certo? E se ele fizesse a amiga sofrer? E se aquele anjo tivesse seu coração partido por ele?

            Então ele preferiu fingir abrir o jogo e disse que não dava mais, que não queria nada sério. Ela sofreu um pouco, ele também. Ele não se perdoou e mais uma vez seu ego falou alto: ele se preocupava com ela o tempo todo e ligava, perguntava e se oferecia pra conversar.  E ela, lógico, não aceitava. Porééém, como todo homem, ele só deu valor quando percebeu – achou – que havia perdido. Ela havia se envolvido com outro cara, que ligava e estava com ela diariamente. Foi aí que ele se coçou e percebeu que já estava completamente apaixonado por aquela bailarina linda de trancinhas e sorriso fácil.

            Aí, amigo, foi “pé na porta”. Vamo acabar com esse negóço ae que essa bailarina tem dono, camarada! E abriu o jogo: ia tentar, estava apaixonado e que se danasse, seu nome não era Raimundo! E aí acabou com a festa, larga esse cara e fica comigo, essas coisas. E ficaram. E estão. Ele nunca achou que pudesse achar naquela bailarina dez anos mais nova e cheia de músicas da moda e saias curtas o amor que ele precisava para entender que não, ele não sabe tudo, não entende de tudo nem consegue prever tudo o tempo todo; um amor que amava ele pelo que ele era, e não apesar do que ele era. E ela não pensou que fosse encontrar naquele escritor vagabundo, arrogante e metido a artista o amor que a faria enxergar a maturidade que ela tinha e não sabia, a sabedoria que ela tinha e não acreditava, enfim, a felicidade que ela já ouvira falar, mas achava que nunca ver tão de perto…   

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