Em tempos de orkut, msn, Joost, Lost, fotolog, Videolog, planos de 3500 minutos de celular, rádios apitando no nosso ouvido dia e noite com gente se falando de graça e enchendo o saco alheio o tempo todo, mensagens de texto e, principalmente, dos quinze canais de sexo da minha Tv por assinatura, ser solitário já é quase uma doença extinta.

 Não dá pra discutir que a internet, o celular e os “Wet and Nasty Fatty Hot Chicks Chanel´s” da vida vieram para acalentar de vez as vidas nerds, solitárias e “não-faço-educação-física-porque-sou-magrelo-e-quatro-olhos-com-ar-de-intelectual” dos jovens mancebos que, há alguns anos atrás provavelmente passariam as tardes de domingo observando os casais na praças e nas ruas meio de rabo de olho, e depois de algumas semanas ia pegar uma metralhadora, entrar num cinema e disparar umas rajadas de leve, depois se matar e, quando formos ver na TV uma matéria sobre isso, vão dizer que “meu filho era um menino tão sozinho, não tinha amigos nem namorada”. E eis que surgem, como bastiões da sanidade mental desses pobres coitados e da integridade física de todos nós, tcharam!, a internet, o celular e os santos canais de entretenimento adulto e solitário.

Poréééém – há sempre um porém – essas pessoas que hoje têm cinco perfis no orkut com quinze mil amigos cada, quarenta depoimentos dizendo o quanto eles são legais, e que não perdem nem matinê de canal pornô não se tornam reis da popularidade e convidados cativos pras festinhas da faculdade na vida real. Eles via de regra se tornam o que, todos nós, não-popstars da internet tememos um dia nos tornar: um mala virtual. Um mala virtual é aquele sujeito que no seu aniversário lasca um “querido Gléguer (suponhamos). Que este dia seja cheio de realizaçoes, felicidade, paz e amor. Que você consiga realizar todos os seus sonhos, pois você merece. Muita luz na sua vida e gostaria que soubesse que você é uma pessoa muito especial na minha vida, e agradeço a Deus por ter feito nosso caminhos se encontrarem. Abraços, Quirino”. Bacana, mas não diz nada, é pseudo intelectual, impessoal e mala! Ele podia mandar isso de anivesário, Natal, Ano Novo, bodas e Ouro-Prata-Diamante, nascimento de bebês, ou até mesmo pra despedida do funcionário da locadora pornô do bairro dele. Amigo mesmo não escreve assim, manda logo um “parabéns ae, ô viado! Tomara que esse ano você coma mais gente do que o ano passado, por que se comer menos fica negativo, hahahah. E onde vai ser a boca livre? Só vou na sua festa se você chamar as gostosas da faculdade. Té mais, bichona”. Amigo tem intimidade, sabe que é amigo, não precisa ficar mandando “beijo no coração” pra saber que é amigo.

O mala manda depoimento até pro filho do cara que arrancou o ciso do sujeito que foi consertar o computador dele semana passada. E sempre falando como melhor amigo, com a poesia de internet que é peculiar ao mala. Aliás, é comum receber correntes como “porque os gansos voam e formação v”, “uma história de amor” ou “você é meu amigo? responda rapidamente à essas 351 perguntas, repasse aos seus amigos e descubra quem te ama de verdade!”. O mala mendiga comentários no seu fotolog, pede a todo mundo pra ser fã dele no orkut e vice mandando scraps e e-mails com “Olá, Gerbásio, tenha um ótimo dia!”. Tá sempre criando comunidades pra todo mundo que conhece, e vive mandando mensagens pras pessoas entrarem na comunidade que fizeram pra ele, claro, depois de muita insistência.

Nas descrições que faz de si mesmo, nunca falta coisas como “sincero, amigo e verdadeiro”, “odeio mentira” ou ainda – essa é a facada no olho! – “descubra você mesmo”. É aquele sujeito que bota no msn “muito triste, não falem comigo”. Ou frases de efeito que ele leu em algum power point que lhe mandaram e sempre atribui ao Verissimo ou ao Dalai Lama. Nunca duvida da fonte, mesmo que seja “manual do skinhead moderno: como construir uma bomba com pregos e cacos de vidro e não ser descoberto, por Sua Santidade o Dalai Lama”.

Muito cuidado, se você se identificou com algumas situações, você pode ser um mala e não sabe. Ninguém responde aos seus e-mails? Seus scraps são sempre deletados com a desculpa de “putz, apaguei sem querer”? As pessoas saem do msn de repente quando você entra? Faça o teste: envie um e-mail para os sete mil e trezentos amigos dos seus seis perfis do orkut, peça pra eles criarem uma comunidade “o Jóbson não é um mala!”, envie, ao final das mensagens sobre menininhas com câncer e lindos textos sobre “a lagarta e a boarboleta”, um texto de sua autoria sobre o verdadeiro significado da amizade, uma coisa bem pessoal, íntima, informal, só pras nove páginas de contatos da sua lista de e-mails. Ah, e antes de tudo, para não se tornar um mala é, quando for fazer um power point bem bonito com esse texto, cheio de fotos de patos, pôr do sol e nuvens com formatos de metralhadora, e repassar falando em o quanto ele é sensacional e genial, não credite ao Dalai Lama ou ao Verissimo. Um deles não precisa de dinheiro, e o outro já tem o suficiente. Seja solidário à pobreza desse nada humilde escritor… Aliás, sensacional a idéia!, faz uma comunidade pra mim e peça pra todos os seus amigos entrarem e deixarem mensagens de apoio e depoimentos pra mim. Quem sabe eu não faço uma coletânea das melhores frases e monto uma mensagem de fim de ano bem bacana pros leitores do blogue?

 

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