Discordo completamente dessa onda de “comunismo intelectual” que anda por aí. Hoje em dia a moda entre professores e psicólogos popstars de plantão é essa história de noventa por cento de transpiração e dez por cento de inspiração. Bobagem. Que mania que as pessoas têm de fazer todo mundo ficar igual. Coisa horrorosa. Escrever, por exemplo, é definitivamente um dom. Ou pelo menos um tipo de habilidade inata. Ninguém ensina ninguém a escrever. Nem conto, nem crônica, nem nada. Assim como futebol, música, desenho ou pintura, é uma coisa que nasce com o sujeito. Você até aprende a técnica, mas técnica não faz de ninguém um escritor. Um ótimo revisor não é, necessariamente, um bom escritor. Uma vez perguntaram à Noel Conrad à que ele atribuía seu sucesso estrondoso como teatrólogo, ator, compositor, letrista, cantor, diretor de teatro e de cinema. Ele pensou, fez uma cara pra fingir que tava pensando muito e lascou, cínico: – Talento.

    Da mesma maneira que entrar numa escolinha de futebol não faz de ninguém um Robinho e entrar num conservatório não vai te transformar num Mozart, aprender gramática ou regras de estilo desses manuais que tão na moda não vai fazer ninguém virar um Veríssimo da noite pro dia. Definitivamente. É claro, e isso não se pode negar, que a parte técnica conta muito. Mas essa é a parte que pode ser aprendida. Você lê e aprende. Ninguém vira gênio em área nenhuma por que leu muito a respeito. No máximo você vai virar um entendido. Entendido é aquele sujeito que nunca jogou bola na vida, mas acha que o Robinho “não é isso tudo não! Ele dribla prum lado só! Ah se fosse eu…”. Mas nunca é ele. Ele critica, quer ensinar, mas não faz. É aquele cara que sabe mas não faz. É aquele professor que você teve que não acha nenhum publicitário famoso bom, mas se acha um gênio. Um gênio dando aula, enquanto os outros imbecis estão lá enchendo o rabo de dinheiro, e ele sendo incompreendido pelo mundo injusto e cruel.

    Escrever bem não é usar palavras rebuscadas ou períodos longos e cheios de vírgulas. Como disse Vinícius, uma frase longa nada mais é do que duas frases curtas. Aliás, sempre duvide das palavras grandes demais. Se você precisa de uma palavra grande pra explicar alguma coisa, pense mais. A escrita deve ter a fluência da fala. Senão o leitor fica de saco cheio e simplesmente desiste. O leitor é preguiçoso. Se em algumas linhas ele não se interessar muito, ele desiste e vai assistir TV. No fim, quando ele terminar de ler, descansar os olhos e parar pra pensar no que acabou de ler, você tem que fazer ele pensar “Putaquipariu! É exatamente isso! Eu sempre pensei isso mas não sabia como explicar!”. Você soube. Esse é o pulo do gato. Eu, por exemplo, não falo nenhuma novidade. Eu falo o que todo mundo pensa, mas eu sei como descrever. E isso cria uma empatia com o leitor. Mesmo que ele não concorde, ele admite a validade dos seus argumentos. Eu uso as metáforas e as comparações que fazem o leitor pensar “pô, pior que é!”. Mas eu pensei e escrevi. Essa é a diferença. Uma vez perguntaram à Michelangelo como ele fazia para esculpir tão bem. Ele falou com a maior naturalidade do mundo: “Eu olho um bloco de mármore e vejo a escultura dentro dela. Tudo o que eu tenho que fazer é tirar o que tá sobrando…”. É exatamente isso. Tirar o que tá sobrando. E não botar o que não existe. É exatamente o que eu faço: penso o que todo mundo pensa, só tiro o que sobra…

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