Há dez anos eu tinha uns cinco graus a menos de miopia, uns cinco centímetros a menos (de altura, pessoal, de altura…), dois brincos e uns três anéis a mais. Há uns dez anos, eu achava que hoje, dez anos depois, eu teria mais barba, um carro, uma casa, esposa e filhos, e minha conta bancária teria pelo menos mais uns quatro dígitos do que tem hoje. Dá pra perceber que nada disso aconteceu ainda. Não tenho pressa, mas há dez anos achava que meus 27 anos seriam meu ápice, e não a minha entrada de verdade no mercado no qual pretendo morrer trabalhando.

Há dez anos eu entrava na faculdade de direito querendo mudar o mundo. E eu não queria mudar pouco não: na época eu já falava inglês, fiz espanhol e francês, e queria a área de direito internacional. Praticamente um Carl Marx com Rui Barbosa. Porém, eu vi que o buraco era mais embaixo. Me desiludi com o direito e parti pra única coisa que eu sei fazer na vida, quer dizer, a única coisa que as pessoas pagariam pra eu fazer. Quer dizer… Esquece. Então, eu fui fazer publicidade.

Há dez anos eu era turrão, mais medito do que eu já sou, se é que isso é possível, e sem motivo. Por que se hoje eu acho que escrevo pra caralho razoavelmente bem, é pelos anos de prática e pela opinião das pessoas, tanto as negativas quanto as positivas. E não tenho esse falso orgulho terceiro mundista de “não me arrependo de nada, mesmo sendo drogado, alcoólatra, homossexual, judeu, flamenguista e estar devendo trinta mil pruns agiotas”. Eu me arrependo sim, fiz muita besteira, não teria feito de novo, ou teria feito as coisas de maneira diferente.

Queria eu, há dez anos atrás, ter próximo de mim alguém que, ao invés de dizer “ô imbecil, faz assim por que é assim que se faz”, dissesse “olha, eu fiz assim e me fodi, se quiser fazer, vá em frente, mas se não quiser, vem aqui que eu te ajudo”. Eu não tive, só tive gente achando que “esse moleque arrogante merece mesmo se foder”. Não to falando de adultos da idade dos meus pais na época, desses eu tive boa ajuda. Mas falo de gente pouco mais velha, que há apenas dez anos, estava passando por aquilo. Alguém que chegasse e me falasse, peremptoriamente (e que me ensinasse o que significa peremptoriamente) “Bicho, se você fizer uma faculdade só pra agradar seus pais, você vai ser infeliz, e vai fazer sua mulher e seus filhos infelizes, e vai chegar no trabalho todo dia doido pra ir embora, e a grana que você ganhar, você vai gastar toda pra se sentir menos infeliz. Mas se você fizer o que gosta, seja escrever, dançar ou se candidatar a Senador, você vai ser feliz. Pode ate ser duro, mas vai ser feliz e vai fazer as pessoas felizes”. E geralmente a gente só encontra gente dizendo “o que? Publicidade? Ta fudido! Vai estudar, fazer direito, porra! Ou quer passar a vida toda de All Star e cabelo despenteado?”.

Pois é, eu sou duro, uso All Star e não penteio o cabelo. Sou muito mais duro do que me imaginava há dez anos. Mas com certeza, muito mais feliz.

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