É, camarada… Tamos ficando velhos, seu filho tá crescendo e nossa contagem regressiva só diminui, levando com ela nosso otimismo, nossa paciência e, sobretudo, nossa fé. Não a fé no sobrenatural, nem no divino. Essa nunca tivemos muita. Mas a fé nas pessoas, nas coisas, no mundo, no amor, nas mulheres e, no meu caso, no fluminense ganhar o campeonato. Nossa situação é muito parecida. Ambos solitários, por motivos diferentes. Você, aí, isolado no meio do nada, trabalhando 27 horas por dia. Eu, aqui onde sempre estive, mas mais sozinho do que nunca, e cheio de gente ao redor. É nessas horas que eu queria muito ter um Pedrinho me esperando pra quando eu chegasse em casa puto da vida, ele me chamasse pra brincar de pirata e recarregasse minhas energias pro dia seguinte, ou pra semana seguinte, ou pro mês até.

O machucado que me incomoda, me perdoe a frase má formada, ainda incomoda. Tá quase bom, mas sabe como é, de quando em vez um ponto solta e sangra um pouquinho. Sabe como é, quando não se tem alguém pra reclamar, qualquer dorzinha demora mais a passar. É isso que falta pra passar de uma vez. Mas nada que o tempo não resolva, sempre resolve. As vezes alguma coisa me faz lembrar de repente, mas bem menos do que antes. Você sabe como eu sou idiota com essas coisas. Deve ser alguma coisa que botavam na água do colégio….

No trabalho melhor não podia estar. Aliás, podia, um aumentozinho é sempre bem vindo, mesmo ainda nem tendo recebido meu primeiro salário. Mas eu gosto pra caralho do que eu faço, lá é muito bom. Pelo menos isso. Durante as aulas de matemática ou de Educação Física, nas nossas conversas o futuro se apresentava para nós com muito mais grana e menos complicações. Casar aos trinta, terminar a faculdade aos vinte e poucos. Nenhum de nós se casou aos trinta nem terminou a faculdade aos vinte e poucos. Você, bem antes do que esperava, mas ganhou um belo presente. Tão belo que de vez em quando eu roubo ele pra mim. E eu, bom, eu continuo fazendo besteira pela vida a fora, um dia eu aprendo.

Quando éramos pequenos achávamos que cresceríamos e não saberíamos fazer nada, e teríamos que fazer uma faculdade genérica qualquer só pra garantir o sustento da família. Hoje descobrimos, mais eu do que você, o que sabemos fazer, e muito bem. Nao quis dizer que eu faço melhor que você só que eu tenho menos dúvidas. Eu tenho um talento bem maior do que achava que teria quando era adolescente cuspindo nos pombos no colégio. Só que nessa época, na nossa cabeça simplória de quem achava que ia mudar o mundo, talento era diretamente proporcional a grana. Pois é, camarada, mas não é. No meu caso, o que ainda me mantém escrevendo, resta saber até quando, é a meia dúzia de comentários em cada texto desse blogue.

E você. Trabalhando na outra ponta do país, enfurnado aí sem internet, telefone, porra nenhuma. De um modo sutil, ambos invejamos a situação ruim do outro. Eu invejo sua solidão forçada e tranquila em um lugar novo, e você inveja o “caminho” que eu to fazendo na carreira. Só que a solidão não é tão legal a ssim, e parece que peguei o caminho errado uns mil quilômetros atrás. E já tá tarde pra voltar, camarada. E você, por mais que seja legal conhecer um lugar novo e por conta própria, ficar long do seu filho não lhe é nada agradável. Pra mim já não seria, imagina pra você.

Mas sabe o pior disso tudo? É que há quinze anos, durante o recreio ou durante as tardes na sua casa jogando RPG, tínhamos uma fé tola e adolescente de que tudo ia dar certo. E hoje, mesmo sabendo que não deu, ainda temos um pouco dessa fé idiota e infantil. E não tenho medo de falar por você, camarada. E é isso que ainda nos mantém aqui, escrevendo, com saudade deo filho, tentando e tentando e se fodendo, pra uma hora poder dizer “nós éramos foda! Sabíamos que ia dar certo”.

Abraços e boa sorte aí pra você, e aqui pra mim. Se acreditássemos em Deus, ia falar “seja o que Deus quiser”. Sempre em frente, e como diria o anarquista John Serzan, “Ou luta ou se cala. Não é tempo de queixas”.

Abraços,

Léo.

Romana Legio Omnia Vincit.

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