Na sua coluna de hoje de manhã, o colunista Joaquim Ferreira dos Santos citou em um momento, uma pergunta que ele fez há muitos anos ao Mestre do romantismo escrachado e desesperado, Nelson Gonçalves. Inquirido sobre qual era o sentido de todas aquelas canções, o Mestre lascou de bate pronto que “cada nota, cada trêmulo do gogó, cada pigarro”, nas palavras do Joaquim, era sempre em prol da busca desesperada de que alguma pequena para sempre dormisse ao seu lado.

Ele resumiu o pensamento de milhares de sujeitos que, em uníssono, pensam dessa forma. São os que chamarei de agora em diante de “Machos Neo-Românticos”. MNR, pra facilitar. São os que ainda mantém vivo o legado de nomes como Waldick Soriano, Nelson Gonçalves e Odair José? Brega, diriam vocês. Não se deixem levar pela pequeneza desses estereótipos que envenenam a sociedade contemporânea, como o dos metrosexuais ou o dos Emos. Cada um na sua, mas com alguma coisa em comum. Enquadram-se nessa categoria não só cantores, mas escritores e poetas que ainda fomentam o romantismo “volta pra mim ou me mato com uma overdose de Doril”. Admito sem pudor ou medo: sou um MNR. Dos piores. Ou dos melhores, entendam como quiserem.

Pois bem, voltando ao primeiro parágrafo, o objetivo que cada linha, cada estrofe, cada grito abafado ou cada ameaça de largar tudo se ela não votar é, no fundo, o mesmo que movia o saudoso Nelson: a busca desesperada de que uma pequena para sempre durma ao nosso lado. Ou embaixo, em cima, meio na diagonal, sem preconceitos. Mas tal situação é uma coisa muito mais, digamos, abrangente do que só isso. Tachados de safados, infiéis e mulherengos, freqüentemente somos acusado de sermos falsos românticos devido à freqüente rotatividade de musas em nossas mentes, corações e penas. A verdade é que nós, MNR, temos um coração grande e vagabundo, mais carente que filhote de hamster em pet-shop de subúrbio. Qualquer cafuné a gente apaixona e já escreve uma música, ou poema e bota um blogue no ar. E já quer morrer se ela não nos atender no dia seguinte.

A tarefa de conquistar um MNR e obter dele exclusividade não é das mais árduas, apesar de não acometer muitas mulheres em sã consciência. As normais preferem os galãs tradicionais: instrutores de mergulho, empresários promissores do ramo de informática etc. Somos mendigos da atenção, pedintes do beijo na testa com cafuné na nuca, perseguidores do cochilo aninhado no peito. Qualquer mulher que se ponha entre os nossos braços por um curto período terá a certeza de que ela é a mulher da nossa vida. Mas não fazemos por mal! Não, não! Naquele momento ela é a mulher da nossa vida, é tudo o que queremos, é a pequena que queremos que durma do nosso lado para todo o sempre. Mesmo que esse todo o sempre só dure até a hora do trabalho de manhã, ou até a hora da próxima pequena chegar para ficar ao nosso lado para todo o sempre. Não fazemos por mal.

Pior é explicar depois que as três últimas coisas que você escreveu na semana passada sobre aquela mulher maravilhosa que você quer pra sempre, na verdade são sobre três mulheres maravilhosas que você quer pra sempre, mas que ainda tem um texto pra uma quarta sendo feito, e pra quinta você mandou uma caixa de chocolates, por que ela não é muito chegada e leitura. Mas era tudo verdade! Cada linha, cada palavra, cada foto de fundo com uma rosa e uma carta manchada com lágrimas. Não somos calhordas, safardanas ou mequetrefes. Tudo isso que fazemos é, seguindo os passos do mestre, em busca de uma pequena que nos brinde com a sua companhia para todo o sempre, nas noites frias e solitárias. O problema é que as noites frias são muitas, e a enorme profusão de idéia que ocorre em nossos cérebros escravos do coração não nos deixa em paz, fazendo com que nos entreguemos ao primeiro olhar terno que nos é lançado. O problema é que ela sempre nos troca por algum instrutor de mergulho ou por algum empresário promissor do ramo de informática. E se não nos troca, e comete a sandice de nos amar incondicionalmente, nossa inspiração passa a não ser mais a mesma, e como ficamos? É nesse ponto que um MNR passa o bastão à nova geração, tendo encontrado alento e pés juntos na noite fria com marshmallow e “nove e meia semanas de amor” no DVD, como fizeram os mestres. Mas enquanto isso não acontece, brincamos na rodinha e fazemos cara de pidão na grade da gaiola, pra ver se alguém para e entra na pet shop pra nos fazer um agrado…

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