Outro dia fiz um texto reclamando que as profissões que exigem talento não são valorizadas, que só se valoriza uma profissão se o cara estudar duzentos anos, essa boiolagem toda. Pois bem, me arrependi. Devia ter estudado e ter sido médico, advogado ou político.

Fiquem calmos, não precisa chorar, não vou parar de escrever aqui não. Era só uma divagação. Pelo seguinte motivo: desde que passei a viver de escrever, escrever o que quer que seja, não tenho sosego. Anteontem um amigo perguntou se eu já tinha tentado escrever música, pra eu fazer uma pra ele. Entrou ontem de novo e “e aí, fez AS músicas?”. No plural. Ele queria “só umas cinco” músicas. Pro dia seguinte. Isso sem falar em gente que me pede depoimento pro orkut, texto pro blogue, até carta pro NAMORADO já me pediram. “Vai, você é profissional, finge que você é mulher.”

Eu mereço. Se eu fosse médico, duvido que eu ia ouvir “cara, to com uma dorzinha aqui. Acho que é apêndice. Você tem um bisturi aí no bolso?”. Ou se fosse advogado, “cara, minha ex ta namorando. To pensando em dar um tiro nos cornos do filho da puta, tem como você me arrumar um habeas corpus no dia seguinte só pra eu poder fugir do país no dia seguinte?”, se eu fosse advogado. Ou se fosse político ninguém ia me pedir tijolo, emprego ou vantagem em licitação de conta do governo.

As pessoas acham que por que eu escrevo eu posso fazer isso em qualquer lugar a qualquer hora. Até posso, mas desde que seja por uma causa nobre, tipo impressionar uma gostosa ou alguma coisa assim. Vou passar a falar que eu sou proctologista ou ex-presidiário. Se bem que mesmo assim vãoa ter uns malucos querendo pedir alguma coisa. Mas no fundo eu gosto, eu até faço, quando não tenho que fingir que sou mulher, claro. Só que a volta é triste, se algum de vocês aí for médico ou stripper, é bom se preperar pra quando eu resolver tirar vantagem disso…

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