– Quer dizer que você faria um comercial de cigarros ou cerveja? Ou um filme violento, que não acrescente nada?

– Claro.

– Hmpf.

– Por que? Qual o problema? Se tão pagando, eu tenho que fazer!

– Claro que não. É errado. Pessoas morrem de câncer e cirrose, por causa de gente como você!

– Peraí, por causa de gente como eu? Eu faço filme e propaganda, não faço cerveja nem cigarro. Nem obrigo ninguém a comprar. Só faço propaganda. Só isso.

– Você é responsável, você faz elas comprarem!

– Faço? Quer dizer que se eu faço um comercial de camisinha, toda vez quem alguém tiver fazendo sexo vai mandar “Ohhh Léééo!! Essa foi pra você, amigão!!!”?

– Você é ridículo.

– …

– Você convence gente a beber e a fumar, e depois elas morrem e batem de carro e matam pessoas por sua culpa.

– E a transar, não esqueça. E elas gosam e fazem filhos também por minha culpa.

– Cala a boca, merda! Você convence as pessoas a beber e fumar, crianças, adolescentes, e não fica culpado?

– Culpado? Pelo amor de Deus! Quer dizer que eu tenho esse poder todo? Se afasta um pouquinho então. (Gritando) EI, MULHERES!! EU TO AQUI! SOU BONITO, CHARMOSO, INTELIGENTE, E QUERO QUE TODAS VOCÊS VENHAM AQUI AGORA E ME DÊEM. AGORA! MAS FAÇAM FILA, POR FAVOR, TEM PRA TODAS! (cínico). Ué, não funcionou por que?

– Idiota! O que eu to fazendo aqui com você?

– Que tal, se divertindo?

– Com um cara que mata gente de câncer e causa acidentes nas estradas?

– Olha, chega muito perto não, que do jeito que a coisa anda, se você engravidar vai acabar sobrando pra mim também.

– E além de tudo não leva o sofrimento alheio a sério…

– Claro que eu levo. Também levo a sério uma coisa chamada Livre-arbítrio. Bebe quem quer, fuma quem quer, e pronto.

– Nossa, que capitalista.

– Tá bom, falou a bolchevique agora. Não to vendo suas roupas de saco de batata, Capitão Planeta…

– Mas eu sou consciente.

– Consciente de que nós estamos entrando pra ver Harry Potter, comer pipocas por quase vinte pratas e tomar coca cola. Não me parece nada capitalista isso.

– Eu faço o que posso.

– Encher o saco de gente normal.

– …

– A propósito, você faz o que?

– Sou estilista.

– ….

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