Ultimamente tenho tido alguns, digamos, problemas, com relação aos meus textos. Não problemas técnicos, nem de opinião pública, pelo contrário. Mas problemas com respeito ao conteúdo. Explico melhor. A priori, numa olhada rápida, quem lê meus últimos cinco textos aqui pode pensar que eu estou apaixonado por três mulheres diferentes. A ex, do texto “homenagem…”, a menininha ruiva, do “A menininha ruiva” e a do telefonema, em “a mesma lua”. Mas quem me conhece sabe que não é bem assim. Pelo menos essa era minha ilusão. Ultimamente várias – mas quando digo várias, não são duas, são várias – pessoas têm me questionado a respeito. “Como assim, ela quer voltar?”, “O que? Você ainda gosta dela?”, ou “Porra, você gosta da ex, a outra ta com saudade mas você ainda tem essa fixação na ruiva?”. Teve até mesmo um “como assim, pensei que eu era o único caso incubado da sua vida?”. Esse, inclusive, me rendeu um olho roxo e uns bons dias de discussão…
Mas vocês devem estar pensando que essas pessoas estão certas, ora bolas!, afinal, eu escrevi mesmo aquilo tudo. Muita hora nessa calma. Escrever escrevi, sim, mea culpa. Mas daí a tudo o que ta escrito lá, ao pé da letra, ser verdade, são outros quinhentos. Eu não sou um documentarista, muito menos repórter policial. Sou um cronista e, agora, roteirista. Vivo de escrever, e na maioria das vezes, “enfeitar” a realidade. A realidade, acreditem vocês, é muito chata. Esse é o nosso papel. Torná-la mais agradável, mais dramatúrgica, dar mais sentido a ela, ou, como eu costumo dizer, fazer a realidade parecer real.
Pois é, por que na verdade, o diálogo do “a mesma lua” foi meio truncado, sem pé nem cabeça, eram uma da manhã e meu pensamento já estava meio comprometido por algumas cervejas. Mas se eu falasse isso ia ficar chato! Então, eu tornei a realidade bem mais “real”. E dos outros dois textos, o que mais se aproxima do real é o da menininha ruiva, por que a única coisa que tive que fazer foi mudar a ordem de alguns fatos, coisa e tal, pra dar um ar de verdade à verdade, se é que vocês me entendem. A realidade não faz o menor sentido. A ficção sim, na ficção tudo se encaixa, e em uns minutos de leitura, ou em duas horas de filme, tudo faz sentido!
E chega um ponto na vida de um escritor, onde isso se torna inconsciente. Enquanto as coisas acontecem, a sua cabeça já vai vendo tudo muito mais redondo, mais romanceado, e quando a gente para pra escrever, é tudo tão real na nossa cabeça que aquilo vira realidade pra gente. E a gente reescreve a realidade do jeito, que admitam vocês ou não, VOCÊS, leitores, gostariam que ela fosse! Quem gostaria de receber um telefonema bêbado, dizer meia dúzia de besteiras e não lembrar da conversa no dia seguinte? Ou resumir sua história com alguém a um mero “a gente sempre quase fica juntos, mas nunca rolou”. Alguém ia ler isso? O pulo do gato é escrever de modo a fazer o sujeito pensar “putz, isso é muito foda, mas podia ter acontecido comigo de tão real!”. Mas não, não podia, a realidade não é tão real assim. Mas você lê, e acha aquilo muito real, tanto que poderia acontecer com qualquer um, e levanta da cadeira, ou sai do cinema, achando aquilo legal, por era “real”, mas ao mesmo tempo fantástico. Não sou um mentiroso, nem um esquizofrênico. Só ajudo as pessoas a enxergarem a realidade com outros olhos, e ajudo a realidade a ser muito mais real, e cá entre nós, muito mais interessante…

Post Scriptum: Até nesse texto aqui eu dei uma romanceada: não ganhei nenhum olho roxo e nãot ava bêbado quando recebi o telefonema. Eu nem bebo. Mas não ficou muito melhor assim?