Eram um casal normal, na medida em que ninguém é normal mesmo… Tinham suas qualidades, seus defeitos, como todo mundo. Se conheceram uns dois meses antes desse episódio ocorrer, e logo começaram a namorar. Fora uma paixão avassaladora. Como todas as paixões. Ele era um doce canalha, desses que fala palavrão por aí, tem tiradas machistas, mas é um romântico que, entre quatro paredes, derrete qualquer uma. Ela, havia tido um passado um pouco duro, que a havia feito se acostumar a homens broncos e frios, mas que agora se derretia diante desse cara com jeito de moleque que havia cruzado o caminho dela. Se davam muito bem. Se entendiam, se tratavam de uma maneira quase utópica. Se amavam e se abraçavam e se beijavam o tempo todo.

Porém, havia um porém. Esse porém, porém, era realmente um problema: ela havia feito algumas coisas da qual não se orgulhava tanto no passado. Havia traído alguns ex-namorados, por motivos alheios que não vêm ao caso. Nada demais, nada escabroso demais, porém, era, definitivamente, um porém. Ele, por sua vez, nunca havia feito isso. Era um canalha de mão cheia. Quando solteiro. Quando enamorado, virava um paspalho sem tamanho. Fazia até textos com palavras como paspalho, enamorado e mão cheia em homenagem à namorada.

Onde está o problema?, vocês me perguntam. Ei-lo: essa pequena diferença de atitudes passadas causava uma espécie de distância moral entre eles. Pelo lado dela, um sentimento de que fizera algo errado e não era digna do amor dele, e por isso, vivia se desculpando e era muito insegura do amor que ele tinha por ela. Pelo lado dele, é até engraçado. Era um rebelde: não um desses babacas que fazer piercings até no dedão do pé. Um rebelde politizado. Escrevia com fina ironia, não se vendia, não ligava pra nada que ninguém falava e não era nenhum modelo de ética e virtude, cá entre nós. Muito pelo contrário. E isso causava nele um certo desconforto. Como uma menina tão linda e meiga como ela poderia ter feito, uma vez na vida sequer, algo pior que ele? Como alguém como ele poderia ter uma “superioridade moral” com relação a quem quer que fosse? Isso sem falar que o incomodava a insegurança dela, se achando pouco merecedora de seu amor. E ele, lançando mão de toda sua idiotice habitual, resolveu resolver o problema:

– Amor. Tenho que te contar uma coisa: eu traí a Gesilêide. É, minha ex-namorada, essa mesmo. Traí, e não tinha coragem de te contar…. Achei que você podia pensar besteira. Pronto, contei, toma sua decisão, eu vou entender…

Ele sabia que ela não o largaria por isso, mas não sabia, a partir daí, o que aconteceria. Jamais traíra Gesilêide, a tratara como uma princesa, uma santa. Jamais a traíra sequer em pensamento. Mas decidiu inventar pra tentar solucionar o problema. E inventou. Ela ficara furiosa, achando que ele tinha mentido para ela esse tempo todo, que ele era um santinho do pau oco!, que nunca acreditou na virtude dele mesmo! Onde já se viu? Um cara com 26 anos que nunca traiu?! Logo vi que era tipo! E ficou alguns dias assim. Meio triste, meio decepcionada. Depois de uma semana, ela o perdoou e fizeram as pazes. Isso foi há vinte e sete anos, seis meses antes de se casarem. E hoje, depois desse tempo todo, ele jura que a relação deles é perfeita. Eles se tratam de igual pra igual. Ninguém acha que não é merecedor do amor do outro, ou que o outro está lhe fazendo um favor em amar tamanho monstro nem nada disso. Se amam da mesma maneira, e são amados da mesma maneira. E ela nunca jogara aquilo na cara dele. Nunca. Agora, porém, havia outro porém: a culpa agora o consumia. Como podia ter mentido para uma pessoa tão condescendente e compreensiva? Definitivamente, hoje ele percebera isso enquanto lembrava dessa história, ele não merecia o amor dela…

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