Poucas pessoas sabem, quase ninguém acredita, mas é a mais pura verdade: eu sou budista. Não, não sou satanista nem ateu xiita. Sou budista. Então, dizia eu, de acordo com o budismo, a vida, ou as vidas, é, ou são, feita, ou feitas, de ciclos. Ciclos, que, naturalmente, se iniciam e se fecham, quer a gente queira ou não. Pois é, e é com muita tristeza que admito, em primeiríssima mão, que acaba de se encerrar um dos melhores ciclos da minha vida. Não um ciclo romântico, nem profissional, nem de amizade. Mas um ciclo que englobava tudo isso. E por isso vai deixar muitas saudades.
Em poucos meses, uma paixão arrebatadora se transformou em uma amizade intensa, cúmplice, dependente, intrínseca e alegre. Como toda amizade deve ser. A paixão não esfriou, pelo contrário, aumentou a ponto de se transformar em uma amizade que ultrapassava qualquer limite. Qualquer limite, disse eu. Nos ligávamos pra dar qualquer notícia, falar coisas ruins, coisas boas, coisas, chatas, coisas interessantes. Nos procurávamos, nos encontrávamos. Tudo ficava em segundo plano. Até coisas que não deveriam ficar. Mas ficavam.
A essa altura, o melhor seria a amizade virar só amizade, ou se transformar em um amor daquele supimpas, de arrebentar a boca do balão. Mas não virou. Continuou a amizade dependente e a paixão incontrolável e arrebatadora. No meio de uma conversa, beijos de arroubo oriundos de uma vontade incomensurável, e a amizade continuava logo depois. Por falar em depois, algum tempo depois, as coisas mudaram. Decidiram que, a amizade provavelmente era parte do processo da paixão. Mas não era. E na tentativa de escolher entre a amizade sincera e a paixão traiçoeira, ficaram sem as duas depois de alguns meses de tentativas.
E o pior, é que, conforme a paixão ia esfriando, a amizade antes eterna ia minguando. E onde antes havia dependência e cumplicidade, havia agora um pouco de indiferença, e a certeza de que não faziam mais falta um na vida do outro da maneira que fizeram um dia. A paixão não volta mais. A amizade se corrompeu, e é bastante pouco provável que a paixão volte. Um deles, hoje, não sabe dizer ao certo do que sente mais falta. Ou melhor, sabe sim: dela. E a outra parte não só parece não sentir falta, como parece hoje, não acreditar que já sentira aquilo. E assim, o ciclo se fecha. Um ciclo que gerou textos memoráveis, palavras de amor dignas de “There will always have Paris”, e momentos de cumplicidade poucas vezes testemunhados por ambos. Um ciclo que marcou a vida dos dois, de uma maneira ou de outra. Um ciclo que, desejo eu, jamais seja esquecido pela outra parte, porque dessa parte aqui, vai ficar pra sempre uma lembrança, acompanhada de um sorriso no canto de boca, e um balbuciado entredentes: “aquela magrela…”.

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