CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos…

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender
nada, numa alegria atônita…

A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos.

Mario Quintana

Não vou fazer tipo. Nem tem por que. Esse texto vai ser lido por umas três pessoas, e todas elas já sabem o que eu vou falar. Todo mundo sabe disso, até quem me conhece pouco pode atestar. Eu sou um cara egoísta, mau, agressivo, solitário, ansioso mais do que eu posso agüentar, violento, mentiroso, cínico, covarde, e muitas outras coisas que qualquer um detestaria ver em um namorado, amigo, irmão, ou simplesmente em um colega de turma. Mas eu tenho poucos, mas bons amigos, que sabem disso, e, ou não ligam, ou fingem – muito bem – que não ligam. Das mulheres que eu tive, a maioria achava isso tudo muito charmoso no início, depois começavam as reclamações. Elas me aceitavam assim e ponto. E passavam por cima.
Mas essa!, essa é diferente. Apesar de eu achar que ela está errada nisso, ela acha que eu sou um cara legal de verdade, e que eu posso deixar de ser assim. Mas sem ser chata, sem ser inconveniente. Ela, naturalmente, me faz ser um cara realmente bem melhor, e acredita nisso. Sem me pedir permissão, ela me faz ser um sujeito muito melhor. E o faz até hoje. E o pior é que ela consegue. Não é forçado nem insistente. Mas ela faz. Nem deve saber que faz, mas faz. E ela me faz querer ser melhor. E mesmo se eu não quisesse. Não tem como resistir. Me manter impávido diante desse sorriso desinteressado e arrebatador é mais difícil do que conseguir configurar a hora do vídeo-cassete. Não tem como passar a tarde com ela na rede tirando fotos idiotas e apaixonadas, e depois continuar sendo o cara egoísta e covarde do início do texto. Simplesmente não dá.
E é exatamente como descreveu o poeta que me sinto: sinto a dolorosa alegria de um espantalho inútil, aonde vieram pousar os passarinhos. Uma passarinha linda, meiga e encantadora, que acha que o espantalho é muito mais do que um solitário monte de palha e trapos. Alegria essa que eu espero que não acabe mais. O Espantalho trocou o cérebro que já possuía com o Homem de Lata, e agora ganhou um coração…. (porra!, isso ficou bonito pra caralho!!)

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