Há várias ocasiões que ocorrem na vida da gente que mudam tudo. Que mudam a gente, enfim, que fazem a gente parar pra pensar na vida, nessa zorra toda, que fazem a gente ter um momento afrescalhado e parar pra pensar na vida. Pode ser uma revelação divina, um acidente de carro, as opções são infinitas. Eu, por exemplo, tive dois. O primeiro gol que eu vi no Maracanã em cima do flamengo e, alguns meses atrás, uma mulher. Não necessariamente nessa ordem de importância. Ou não. Mulher é jeito de falar. Uma menina. Não menina no sentido pejorativo, mas uma menina no olhar, no jeito de falar e se vestir, menina nos modos e no cochilo despreocupado, menina no all star colorido e no casaco verde, no sorriso fácil e contagiante e no andar despojado e sempre altivo, menina na timidez do momento após o beijo e no abraço forte e terno durante o mesmo beijo, menina na inocência com que confia nas pessoas e nas (sem sempre) boas intenções de todos ao redor, menina na fé na vida e na crença de que tudo vai dar certo pras pessoas boas. Menina na cara enfezada de criança birrenta que não quer sorrir pra foto. Menina quando perdoa as cretinices alheias e as calhordices que lhe aprontam, e ainda mais menina quando retrubui essas atitudes com generosidade e piedade.
E quando acontece uma coisa dessas, você para e pensa nas prioridades da sua vida. Se vale a pena abrir mão daquele sorriso encantador pra ficar trabalhando até as onze da noite, se vale a pensa continuar bancando o durão perigando marejar aqueles olhinhos pidões e inocentes, e chega a abalar sua ceretza de que ninguém presta e que o jeito é juntar-se a eles. Quando acontece isso, você para pra pensar num monte de gente que não merecia, mas que você deu um valor danado, no monte de coisas que hoje você nem lembra mais, mas que na época você lutou contra o mundo pra conquistar. Por que no final, quando o trabalho passar, as pessoas erradas passarem e quando o mundo que você havia construído começar a ruir, o que fica é o sorriso largo e os olhos apaixonados. Mesmo que fique só na memória. Afinal de contas, é melhor ter amado e perdido do que nunca ter amado. Por que no final, camarada, é isso que fica. A lembrança da menina. Ou do gol no Fla-Flu. E, aconteça o que acontecer, é isso que vai te fazer manter o ânimo e a alegria até o final.

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