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     Inspirado por uma amiga que dá aulas de português e amarrou seus alunos das cadeiras e os obrigou a ler meu blogue, decidi escrever sobre o segundo tema mais comum em crônicas depois da falta de assunto: a própria crônica. A crônica foi, e ainda é para algumas pessoas, infelizmente, considerada um gênero menor. Para estas pessoas, a crônica não tem a seriedade e o sentimento da poesia nem o peso e o fôlego do romance. Este pensamento não é mais predominante e começou a perder espaço quando grandes escritores começaram a se bandear pro lado das crônicas, como Machado, Drummond, Nelson Rodrigues etc. E hoje em dia o sucesso e o respeito pela crônica se deve em grandessíssima parte a um sujeito chamado Luis Fernando Verissimo, simplesmente o melhor escritor brasileiro vivo. Ele mostrou que crônica não é subgênero. Muito pelo contrário.

 

      Eu costumo, com relação à crônica, citar Picasso. Uma vez um repórter perguntou ao Picasso por que ele “desconstruía” a arte nos quadros dele, por que ele subvertia a arte, enfim, por que ele não pintava como os outros pintores de seu tempo, que faziam obras quase perfeitas tecnicamente. E o mestre respondeu, calmamente, que para ter a liberdade que ele tinha e para “desconstruir” como ele fazia, ele passou anos aprendendo a “construir” e aprendendo a técnica, para poder enfim se libertar. Bom, como eu acabei de inventar esta história, vou explicar melhor. Um bom cronista não é alguém que “só” conseguiu escrever crônicas, e por isso ele o faz. É um sujeito que escreve bem qualquer coisa, e ele resolveu usar seu talento para algo que lhe satisfizesse, no caso a crônica.

 

      Outro fator pelo qual os autores de crônicas devem ser respeitados e a crônica entendida como literatura de verdade é o assunto. Em um romance você tem um assunto, desenvolve ele e temos um romance. Na crônica, cada obra é um assunto. E se for um cronista diário, como o LFV, haja inteligência e talento para falar de tantas coisas de maneira que as pessoas se interessem. No caso do Verissimo, eu por exemplo cada vez que o leio penso “Ahá, agora não tem mais assunto, quero só ver!”, mas ele inventa um assunto e faz uma crônica melhor que a outra, sempre. Uma boa crônica é aquela que você lê e pensa “É isso mesmo! Como eu não pensei nisso antes?”. Porque as idéias e os assuntos são simples, o que faz de um cronista um BOM cronista é a maneira que ele fala sobre qualquer assunto, fazendo-o ficar interessante. É aquele texto que você lê concordando até o fim, se identifica com ele. A crônica fala a língua das pessoas comuns. Fala de assuntos comuns, corriqueiros. É aquele texto que te faz achar que é muito simples de fazer, muito fácil. Mas não é. Pelo contrário. É muito fácil escrever um livro ou um texto longo de forma rebuscada, difícil de entender. No caso da crônica, o feedback do leitor é na hora. Ele lê e já dialoga com o texto.

 

      A crônica é o gênero mais gratificante de escrever. A resposta das pessoas é imediata. Você muda a vida de uma pessoa com um texto, alegra uma pessoa doente, ajuda alguém a manter um namoro, estimula alguém que quer começar a escrever, enfim, vale a pena.  Não dá dinheiro, você não vai pra ABL, não vai ganhar um Jabuti nem um prêmio internacional de livros, mas vale a pena. A não ser que você seja o Verissimo. Aí você ganha dinheiro, tem chances de entrar pra ABL, ganha prêmios e tudo mais. E você sabe que está mudando a vida das pessoas quando, em um texto como este, você tem seu nome citado diversas vezes. Se eu conseguir mudar e tocar alguém como o Verissimo fez comigo, vai ter valido a pena. Claro que vender milhares de livros também não ia ser nada mal. Ah, e o “toque” dele não foi nada disso que você tava querendo fazer piadinha aí nos comentários. Apesar de gaúcho ele é um sujeito sério e a minha namorada é ciumenta.         

Bom, com todos vocês sabem, eu não passo de um imitador barato do Luis Fernando Verissimo. Barato e mais magrinho. Tô até aprendendo a tocar sax. Então, assumindo a minha completa falta de criatividade e estilo próprio, vou lançar aqui um “meme”, e vou convidar alguns camaradas. Pra quem não sabe, “meme” é um post onde sujeitos com tempo sobrando blogueiros com  espírito colaborativo convidam outros blogueiros com muito tempo sobrando para falar sobre um assunto ou continuar um post. Em 1997, quando muitos de vocês ainda apreciavam o Cine Privé nas tenras madrugadas de quinta feira, o Verissimo escreveu um texto onde eles respondia às – segundo ele – grandes questões.

Vou puxar o bonde e fazer um texto respondendo às mesmas questões. E não vou postar aqui o que o nosso querido escriba teria respondido, por dois motivos: primeiro que vocês vão comparar e vão concluir que eu não passo mesmo de um copiador barato. E segundo que se eu tiver sem criatividade eu vou copiar as respostas dele e ninguém vai saber. Vamos lá.

 

(Era brincadeira, eu não vou copiar as respostas dele não. Eu só vou me contorcer e ter cólicas de inveja, mas copiar não)

 

Vida – Devolva minha fantasia.

Morte – Não quero estar por perto quando acontecer. 

Vida após a morte – Deve ser fanstástica. Lá pelo menos Coca Cola não deve dar gastrite, mulheres devem detestar preliminares e ir direto ao assunto e o Padre Marcelo Rossi deve ser mudo.

Reencarnação – Eu gosto tanto de mulher que quero voltar cantora da MPB.

A nossa insignificância diante do universo infinito – É só tomar um viagra que passa.

Ser ou não ser – Não ser, dizer que é, arrumar um laranja pra ser por você e dizer que não sabia de nada.

A angústia exitencial diante da transitoriedade de tudo –  É  só se mudar pra Niterói. O trânsito de lá é tão ruim que o tudo não ia transitar de maneira nenhuma.

O cérebro humano está capacitado a responder a todos os enigmas da existência – Não, mas o Google taí pra isso.

Um sistema econômico voltado para as necessidades sociais e não dominado pela cupidez humana – É o novo desenho da Pixar?

O que é mais importante, a genética ou o meio? – O ideal seria um meio termo. Uma Gisele Bündchen filha do Rei da Dinamarca ou que o Ronaldinho Gaúcho fosse filho do Pelé. 

Existe um ser superior que dirige as nossas vidas? - Não. Existia, mas em 1999 ele fez vinte pontos na carteira e de lá pra cá ele tenta todo ano mas não consegue passar na prova de direção defensiva.

Pra onde caminha a humanidade – Pra um mundo de caos, luxúria, corrupção, violência, sujeira, traição e viadagem. Ou seja, pra Copacabana.

 

E convido para responder às questões, meu companheiro de blogue  Julinho da Adelaide, do Perca Tempo! pro camarada TG, do Ela Tá de Xico, a Mah, do Vida em Posts e  o Fernando Caruso (que tem mais o que fazer e não vai aceitar), do Blog do Caruso. Se as respostas deles forem melhores que as minhas, não comentem lá. Eu sou possessivo e tenho ciúmes dos meus leitores. Principalmente das leitoras gostosas ávidas por uma relação tórrida e sem pudores com escritores-blogueiros. E você, caro leitor, contribua com as suas respostas nos comentários. Vou publicar as melhores respostas aqui em uma compilação, com uma resposta de cada leitor.

 

Adendo 1: conclamo também o camarada Rafael, do Vai Digitando. Conforme eu for lembrando vou chamando mais gente.

 Você percebe a real importância – ou falta de – alguma coisa, ou de alguém, quando ela começa a virar medida pra outras coisas ou pessoas. Na verdade, a importância negativa ou positiva. Quando alguma coisa ou alguém começa a servir de medida, de comparação, aí a coisa fica feia. Não digo comparação do tipo “mas você ta parecendo fulano”, ou “nossa, isso me lembra cicrano”.

To falando de virar medida mesmo, UNIDADE de medida. Quando você fala que o deputado xis é ‘meio Brizola’, porque a (suponhamos) esposa dele perdeu as eleições em alguma cidade (suponhamos novamente) do interior do Estado e ele fez escândalo, gritou, berrou, ameaçou, mandou demitir, fez biquinho e chamou todo mundo de chato, feio, bobo e cabeça de melão, ISSO é ser medida. Independente de ser pejorativo ou não, ‘ser meio Brizola’, por exemplo, virou medida praquele político verborrágico, que fala o que quer, briga, grita, reclama e no fim sempre se acha injustiçado e acha o povo ingrato.

‘Esse autor é meio Paulo Coelho’, por exemplo, é um pouco mais ofensivo do que ser ‘meio Brizola’. O Brizola era assim mas era um sujeito de caráter, de virtudes inegáveis. Já o Paulo Coelho, bom, digamos que as virtudes dele não sejam assim, como direi?, tão, digamos, visíveis. Ser meio Paulo Coelho é aquele autor que fala, fala, fala, não diz nada mas todo mundo gosta. Não vou citar nomes, afinal, amanhã podemos ser – isso É um lobby – colegas de editora. É aquele cara que escreve mal, só fala clichê, mas mesmo assim todo acha ele o máximo e adora citar autor francês e fazer ar de blasé ‘não adianta explicar porque vocês não vão entender mesmo’.

Tem outras medidas recorrentes, como ser meio César Maia (maluco que acha que é a frente do seu tempo) ou ser meio estudante de teatro (veado que quer ter uma desculpa formal pra desmunhecar, ver os amigos pelados e se vestir de mulher). Eu mesmo, tenho que admitir, sou medida pra várias coisas. A maioria negativa. ‘Você ta meio Léo’ tem mais significados do que tem atendimento publicitário que depila o peito e usa anel no polegar em sauna gay. Se você é muito chato, fala demais, não para quieto, pergunta tudo o tempo todo ou se simplesmente tem o Ego maior que topete de vocalista de banda independente, com certeza um dia você vai ouvir que você ‘é meio Léo’. Já ouvi dizer até que já deixaram escapar um ‘Aaahhhh!! Vai, vai! Isso! Assim, assim!! Vai, vai, vaaaai!! Aaahhh, você é tão Léééééééééoooo!!’. Mas claro que não passam de boatos não confirmados. A única comparação da qual me gabo até hoje foi de ter ouvido um ‘pô, você é meio Verissimo’. Levando em consideração que eu não sou nem um pouco tímido e não sei – por enquanto, por enquanto – tocar sax, me parece que a comparação foi, como dizem os ‘meio intelectuais’, a nível de estilo. Se bem que do jeito que ele anda rechonchudo, eu devo ser, literalmente, meio Veríssimo… Merda. Como era doce a minha ilusão… Acho que vou dar uma engordada e perguntar pra pessoa que me falou isso: ‘E aí, cara, será que eu sou, assim, sei lá, meio Veríssimo?’. Por via das dúvidas eu vou levar meu sax e me fingir de tímido. Nunca se sabe.

Acompanhem o raciocínio: você é um adolescente na década de oitenta. Ia pra escola cantarolando o “pam-pa-ra-raaaaam, pam-pa-raaammm” da música do Indiana Jones. Você queria usar um chapéu daqueles quando crescesse, mesmo se você fosse dentista. Você tinha uns dez chicotes de brinquedo e ficava fazendo todos eles estalarem que nem nos filmes. Você falava os diálogos dos filmes com os amigos na rua, matava o inglês quando passava um deles na sessão da tarde. Há uns meses você viu o teaser do filme novo do Indie no youtube. Bacaninha, apareces os créditos, o nome do Spielberg e tal. De repente, a música começa: o som do chicote estalando faz você se lembrar das tardes de
TV pulando do sofá pra estante querendo ser o Indiana Jones. E no momento em que a música começa e o chicote estala, aparece ninguém menos que Harrisson Ford. Ele pega o chapéu, sacode a poeira e sai andando. Só isso. Simples assim. Nesse momento, você sente um arrepio que só se compara aos arrepios de cunho, sem trocadilho, sexual. Seus braços se arrepiam de um jeito que parece que você ta no pólo norte! E você pode ver o trailler mil vezes, que o arrepio se repete. Conseguiram alcançar o arrepio? Entenderam o sentimento que trouxe o arrepio? Já sentiram algo assim? Ótimo, então guardem essa descrição aí em cima que daqui a pouco vou usá-la.

Pois então, agora começa o texto de verdade. Escrever é talento ou treino? Uso aqui talento porque a palavra dom teria uma conotação divina, e eu como bom comunista que come criancinhas no café da manhã (e nem sou padre…), não acredito em Deus. Mas e aí? O que vocês acham? Talento? Treino? Iluminação divina? Bom, pra começar, se fosse iluminação divina eu preferia trocar meu dom pelos seis números da mega sena. Mais justo. Não vou fazer média nem ser falso-modesto pra ganhar cafuné. Eu acho – tenho certeza – que é talento. Sem churumelas. Uns mais outros menos, uns pra poesia outros pra fazer blogue, uns fazer teatro e outros pra ganhar dinheiro, mas de qualquer forma, talento.

Pros que acham que é treino, permitam-me uma argumentação muito simples: grosso modo, qualquer um com treino e trabalho duro aprende a escrever, segundo vocês. Então qualquer atividade artística seria assim, bem como o futebol. Eis que surge a minha fantástica tese, já registrada no INPI, e pronta a me deixar milionário e ganhar quadro no Fantástico: se futebol é treino, por que existe o cabeça de área? Se todos treinam igual, todos deveriam ser o Ronaldinho Gaúcho. Será que se o Vampeta começar a treinar dez horas por dia ele vai conseguir dar umas canetas no Denílson? Não, não vai. E se escrever é treino, por que existem os livros de auto-ajuda? Por que o Paulo Coelho não escreve um épico, ou esses gurus que andam por aí não tão escrevendo filmes e revolucionando o cinema brasileiro?

Se o treino fosse mais importante do que o talento, do que o conjunto biológico, as escolas de artes só formariam Rennoirs e Da Vincis, e escrever em agenda ou em blogue faria de qualquer um um Verissimo. Ah, lembrei por que falei do Indiana Jones. Pois então. Certos autores têm esse dom, talento ou algo que o valha, de nos fazer sentir isso. Quem nunca leu uma crônica do Verissimo e sentiu aquele arrepio lá do primeiro parágrafo? Ou um filme do Woody Allen? Ou um poema do Pessoa ou do Drummond, ou uma letra do Vinícius? Será que o treino e o trabalho pesado podem fazer qualquer um nos fazer sentir aquele arrepio do Indiana Jones? Não, não podem. Trabalho ajuda, treino ajuda, mas ter nascido pra coisa, como dizia vovó, é o que te tira da bancada de “3 livros por dez reais” e te manda pra uma seção com o seu próprio nome, enfim, é o que faz as pessoas se arrepiarem com o que você fez com um simples “pam-pa-ra-raaaaam, pam-pa-raaammm”…

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