Hoje é meu último dia no meu atual emprego. Amanhã fico na molezinha e quarta já começo no novo. Também é uma agência, só que de internet. Vou trabalhar na mesma área, só que com estrutura e trabalho de verdade. Mas ninguém tem nada a ver com isso, e vocês não vieram até aqui pra ler diarinho. Só falei isso porque tem a ver com outra coisa que eu já queria falar. É o Efeito Caderno Novo. Não procurem no Google, acabei de inventar. E o que esse feito tem a ver com mudar de emprego? Calma, vamos chegar lá.

Desde criança eu sou um cara muito disperso. Nunca gostei de estudar no sentido “escola” da coisa. Gosto de ler, estudar de verdade, mas estudar como se estuda na escola, nunca gostei. Mas tinha uma coisa que me fazia estudar, além de fazer trabalho em grupo com a gostosa da sala e as promessas de recompensas em dinheiro em caso de aprovação: comprar caderno novo. Bicho, era impressionante! Durante o ano eu não usava nem dez folhas do caderno. E se usava, nove eram desenhando guerra de bonequinhos de palitinho. Mas no final no ano o caderno tava chechelento, todo ferrado coisa e tal. Então aquele caderno ia pra pilha de cadernos não-usados e lá ia eu comprar um novo. 

É aí que entra o Efeito Caderno Novo: quando eu comprava um caderno novo, comprava também canetas, livros e toda a parafernalha estudantil junto. E eu saía da papelaria pronto pra conquistar o mundo, pra ir pra Harvard, pra fundar o Google! Porra, eu tava de caderno novo, ninguém me segurava! Aí eu ficava inquieto esperando o começo das aulas, doido pra começar logo e encher meu caderno de equações e fórmulas e textos! Eu só ia tirar dez e ia ser o próprio Ernest Hemmingway com meu caderno debaixo do braço! Aí as aulas começavam e eu enchia dez páginas do caderno na primeira semana de aula, fazia dever de casa e tudo o mais. Aí na segunda semana eu já nem levava mais a porra do caderno pra aula, muito menos estudava qualquer coisa.

Aí depois eu descobri que, em menores proporções, esse Efeito acomete muita gente. E agora, fazendo o linque com o primeiro parágrafo, eu também sou assim no trabalho. Eu gosto de mudanças de ambiente, acho bacana, enriquecedor. Desde o primeiro dia que eu fechei com a nova agência eu já fiquei morrendo de ansiedade pra começar logo, já entrei no site, pesquisei sobre os clientes, a porra toda! Começo quarta feira, mas parece que tenho um encontro marcado com a Angelina Jolie! Vou hegar uma hora antes e sair uma hora depois na primeira semana! Vou me sentir prestes a conquistar o mundo, ganhar um Leão em Cannes, um Oscar e em um ano já comprar meu Jaguar X Type 1967 e em dois anos já estar morando em uma mansão em Malibu com duas secretárias tailandesas que andariam somente de colares floridos (SOMENTE) me servindo. 

Mas nesse caso, eu não vou deixar o caderno em casa. A empolgação vai continuar, até porque, até hoje nenhum leitor quis me pagar uma fortuna pelos meus textos nem fui convidado a escrever um livro que seria traduzido em trinta e oito línguas. Mas pro caso de algum dos meus futuros chefes estarem lendo isso, aquilo de chegar cedo e sair tarde era licença poética, oquei? Mera licença poética.

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