Depois de um longo período de vagabundagem e preguiça muito trabalho, cá estou de volta para o deleite dos milhares de internautas que me lêem diariamente. Como todo escritor que se preze, sou uma fraude, e só tenho idéias lendo jornais. Só que dessa vez foi o contrario: sempre na vanguarda e antecipando tendências, falei há algum tempo sobre um assunto que é hoje tema de um texto no suplemento de informática d’O Globo: a dependência da tecnologia. Eu abordei só a internet, enquanto eles falaram da dependência da tecnologia como um todo. Mais precisamente da deficiência que essa dependência pode causar na mente dos jovens.
Dia desses eu tava aqui na minha mesa lendo não lembro o que, quando pensei alto e fiz uma pergunta tipo: ‘quanto é oitocentos vezes setenta e três”? (não faço a menor idéia de porque eu queria saber disso, mas na hora deve ter sido importante). Foi quando a mascote aqui da agência, a Nanda, começou a procurar uma calculadora na bolsa. Possesso com a dependência dela por aparatos tecnológicos e disposto a não perder uma oportunidade de desfilar toda a minha genialidade, comecei a fazer a conta em um papel. Nem preciso dizer o resultado dessa previsível batalha… Antes de eu terminar de escrever a segunda linha da conta ela já tinha falado o resultado com sete dígitos depois da vírgula. O que isso prova, tirando que eu sou um imbecil sem a menor noção de matemática e que não sabe usar calculadora do celular? Bom, prova que, nesse caso, a tecnologia foi muito mais útil e eu escrevi tudo isso até aqui a toa.
Mas não, não foi a toa. A pequena fábula da lebre e da tartaruga contada aí em cima serviu também para corroborar a tese de que as pessoas estão perdendo o interesse em fazer contas de cabeça ou com papel, ou de escrever a mão. Pra que fazer conta de cabeça de qualquer celular de um e noventa e nove tem calculadora, e pra que escrever a mão se qualquer buraco hoje em dia tem uma lan house? Sei lá, mas isso deve significar alguma coisa. Tem gente que não escreve a mão há meses, talvez anos, e só sabe assinar ainda porque as vezes usa cartão de crédito pra comprar alguma coisa que não dá pra comprar pela internet.
Deve ser difícil ensinar matemática na escola se ninguém faz mais conta, ou ensinar caligrafia pra uma criança alfabetizada pelo Word. Eu sei que isso não serve pra nada mesmo, e que provavelmente você nunca mais tenha que fazer uma conta a mão ou escrever uma carta. Mas eu sou old school, gosto de escrever cartas, bilhetes e andar com os bolsos cheios de papel com anotações a mão, que no terceiro dia eu já não faço a menor idéia do que se trata. Mas estão lá, como uma barricada de resistência. Podiam ser uma entrada na agenda do Google ou uma anotação no calendário do meu celular, mas não, são papeis rabiscados e sujos.
Mas isso não é só questão de nostalgia. Digamos que você esteja em um avião e ele cai no meio da floresta amazônica. Sem computador e sem celular. E aí? Como você faz? Tudo bem que se isso acontecer a última coisa de que você vai precisar é fazer uma conta ou escrever uma carta, mas nunca se sabe. Pelo menos, se acontecer comigo eu vou estar preparado. Se canibais selvagens que cultuam a matemática disserem que irão devorar todos aqueles que ao conseguirem calcular quanto é treze vezes dezessete em menos de trinta segundos, eu não vou morrer. Ta bom, vou morrer sim, mas porque sou um imbecil em matemática, e não porque não tem um celularzinho a mão. Vou morrer com honra!
Isso sem falar no meu orgulho em uma situação dessas:
- Bom, senhor Leonardo, a sua consulta era no dia 13, e hoje é dia 18.
- Ah, desculpa. É que o meu 3 parece com um oito.
- Como?
- É, eu anotei a data nas costas da nota fiscal do meu almoço, e confundi os números.
- Anotou? Com caneta?
- Não, com lápis. Minha caneta tava falhando.
- Lápis? E porque o senhor não anotou no computador, ou no celular do senhor.
- Porque eu prefiro assim, sabe? Não confio muito em computador.
- Pelo menos no computador o senhor ia saber a diferença entre um 3 e um 8.
- Mas e se o computador dá pau? Se roubam o celular? Nunca se sabe.
- Mas o senhor ia ter a data escrita em dois lugares, mais seguro.
- Mas eu faço becape dos meus papeis! Eu tenho em casa um papelzão com tudo o que eu anoto nos papeizinhos que eu ando no bolso.
- E no papel de casa ‘3’ e ‘8’ tão escritos por extenso pra não ter dúvida?
- Olha, agora que eu percebi que você está zombando de mim. Vamos ao que interessa, tem como me encaixar num horário hoje?
- Olha, senhor, não acho que o senhor queira ser encaixado…
- Ta bom, qual a piada agora? O médico só atende quem marcar horário por email ou tiver uma agendinha eletrônica?
- Bom, senhor, acho é melhor o senhor começar a usar um computador pra anotar essas coisas. Ou então melhorar a letra. O senhor pode se dar muito mal com essas confusões…
- Agora vai querer me dar aula de caligrafia? Vai ficar me ameaçando? O que que a minha letra tem a ver com um horário pra hoje? E eu posso me dar mal porque? Só porque errei a data? Você nunca errou uma data antes?
- Bom, senhor, aqui no papel que o senhor me deu tem uma hora marcada com um otorrino pra fazer uma endoscopia, e aqui é o consultório de um proctologista. Se fosse no computador o senhor podia até ter errado a data, mas com certeza não ia acabar com um cano com uma câmera na ponta enfiado no rabo…
Pode até ser doloroso, mas ser da resistência é muito mais cool…



11 comments
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Julho 28, 2008 às 11:41 am
Renata Rolim
hahahahaha adorei!
Eu só consigo pensar com um papel e caneta! Recebo briefings por email e rabisco o mais importante num papel…
by the way, dá uma passada no blog da agência que eu to agora, http://www.icecreamnow.com.br/
bjos!
Julho 28, 2008 às 11:57 am
joão
Tá muito bom.
Mas eu faria melhor.
Julho 28, 2008 às 12:12 pm
Carla
Já faz algum tempo que leio seus textos..mas esse aqui está demais, muito bom mesmo..rsrsrrs..Parabéns!!!!!
Julho 28, 2008 às 1:35 pm
Ju Dacoregio
Ah, se meu avião cair na selva estarei preparada. Um livro e caneta eu sempre tenho e, às vezes, até uma agendinha.
Mas estou muito mais acostumada a digitar do que a escrever hoje em dia. Parece que os pensamentos fluem melhor enquanto digito. E a possibilidade de apagar, refazer, colar, trocar a ordem das frases é muito incentivadora!
Julho 28, 2008 às 4:15 pm
Senhorita Rosa com o candelabro, na biblioteca
Hahahaha, eu faço =. Tenho 2 cadernetinhas que qualquer dia se desintegram na minha bolsa ou criam asas e somem das minhas mãos. Sem elas não sou ninguém… rs.
Bezzos, e tô contigo. Também sou da resistência.
Julho 28, 2008 às 8:15 pm
Willyan
No escritorio onde trabalho as secretarias entregam bloquinhos de papeis quase todo mês e eles sobrevivem pouco tempo a maioria dos calculos são feitos no papel ou de cabeça…Os cooredenadores fazem o To Do no papel os projetistas fazem pequenos desenhos tecnicos, já os desenhistas…anotam numeros aleatorios ,fazem carinhas e mandam fofocas um para o outro…isso quando não viram origami…risos…a conciencia ecologica para reaproveitar os papeis é muito bem utilizada….
Julho 29, 2008 às 1:08 pm
Giuliane
Antes quando meu cel funcionava eu usava o lembretes. Hj ele está uma merda, só serve pra atender ligação ou fazer ligações para n q sei de cabeça. Então uso qualquer papel a minha frente pra anotar, se bem que depois eu perco, esqueço onde coloquei e tudo mais….Otimo texto!
Julho 29, 2008 às 5:37 pm
Day
Fala Léo!!! Cara, esse negócio de anotar no papelzinho não é cmg. Todas as minha anotações estão no celular. Dentista, médico, pagamentos, aniversários, contas correntes…. Se me roubam o cel, tô frita….
Excelente texto! (Como sempre, mas não vou dizer isso pq seu ego já tá mto grande. rs….)
Bjs!
Agosto 2, 2008 às 10:19 am
Cintia
Eu ainda intercalo os papéis e a tecnologia. Se to num ônibus e tenho uma idéia, tiro um papelzinho (pode ser também a nota fiscal do almoço) e escrevo, porque acho péssimo fazer essas anotações num celular. Já para anotar compromissos e horários, meu celular é o único meio utilizado. E tirando as vezes que estou no ônibus, só escrevo textos no word. Escrever à lápis me irrita. E qual é a vantagem de escrever à caneta, se não existe o botão “delete”?
Adorei seu texto, desde o título, hahahaha! Beijos
Agosto 5, 2008 às 2:01 pm
Lita
Léo, matematica é pinto. O grande problema é que as pessoas estão deixando de amar pra ler sobre amor na Wikipédia, estão deixando de transar para fazer sexo virtual, estão deixando de tomar um chopp com amigos pra ficar de bate papo no msn, deixando de conhecer novas pessoas, ter novos contatos, para ficarem em salas de bate papo. As pessoas interrompem conversas para falar ao celular. A tecnologia é ótima e tal, mas as relações humanas e o contato físico, olho no olho… tá tudo em extinção. Alguém me tira daqui antes que eu quebre esse latop…
Bj, Lita
Agosto 12, 2008 às 11:02 am
Bia
kkkk… muito bom o texto. Tdo bem que não sou um exemplo de “resistência”, por mais que tenha sempre na minha bolsa quatro canetas (sem exagero), um caderno de anotação, e lógico, minha inseparável agenda, que só serve p anotar o q passou, pq compromissos futuros, esses só podem ficar no celular, pq vamos combinar q agenda é muito legal, muito útil, mas n tem alarme p te lembrar dos compromissos!
rs
bjinhossssss