É consenso e até lugar comum pra comentarista filisofar, se falar que o Brasil tem cento e noventa milhões de técnicos de futebol. Puxando a brasa pra minha sardinha, há certo exagero na frase. Desses cento e noventa milhões, vamos botar pelo menos uns noventa milhões são mulheres, que por limitações intelectuais, implicações legais e socos no olho pra parar de falar durante o jogo, não gostam nem discutem futebol. Logo, nos restam uns oitenta milhões de técnicos. Aí temos também as crianças com menos de dez anos e as pessoas com mais de oitenta, que só discutem futebol pra falar que o futebol não é mais o mesmo. Esses devem ser uns vinte milhões. E por último temos as classes intelecualmente superiores, que não ligam pra essas coisas baixas, mundanas e sem sentido como futebol, que são os atores de teatro infantil, os webdesigners, os professores de literatura e os bailarinos homens(?). Temos aí mais uns dez milhões. Então, se eu não errei a conta, só nos resta algo perto de oitenta milhões de técnicos. Ainda é muito, mas quase nada se comparado ao que vou falar agora. Apesar desses exemplos claros aí de cima, de gente que não liga ou não discute futebol, há um campo onde não há um ser humano sequer que não se ache o próprio Rubens Ewald Filho comentando o Oscar: a propaganda.
Quem trabalha com propaganda sabe disso. Todo mundo, das mulheres aos velhinhos passando (com as costas pra parede) pelos bailarinos e pelos atores de teatro infantil, se acha especialista. E não séo se acha especialista como também acha tudo uma merda e tem certeza que faria melhor. Há casos onde é evidente que poderíamos fazer melhor: eu como namorado da Carla Bruni, por exemplo, faria beeeem melhor do que o manda-chuva Français. Mas não é o caso.
- Amor, que que você acha desse comercial?
- Ah, sei lá. A menina é meio sem jeito, meio macarrão sem molho…
- Mas amor, ela é uma adolescente, e…
- Não tem essa. Podia ser uma adolescente mais Beyoncé, mais Mulher Melancia… E nenhuma adolescente fica se olhando no espelho com essa cara de boba. Tem que fazer umas caras sensuais, apertar os peitos…
- Mas ela quase não tem peitos! Por isso o comercial!
- Ainda tem essa:um comercial de sutiã e você bota uma menininha rodízio de chuchu com menos peito que o Rodrigo Santoro!
- Mas amor, ela tá se descobrindo, é o primeiro sutiã…
- Pior ainda! Pra que ela vai precisar de um sutiã com essas mordidinhas de mosquito aí? E hoje em dia menina não liga mais pra isso não. Tem que ser uma coisa mais ousada, mais quente. Esse climinha de menininha do interior que descobre que tem peitinhos não cola. E esse sujeito com cara de bobo olhando pra ela? O cara quer comer ela e ela acha o máximo? Quero ver depois que ele sumir e não ligar no dia seguinte se ela vai ficar feliz…
- Mas amor…
- Olha, bem, é minha opinião. Você sabe que eu entendo de propaganda, eu sou seu público-alvo, sou mulher… Entendeu?
- Entendi sim… (cabisbaixo)
- Olha, Washington, se você continuar tendo essas ideiazinhas meia boca não sei não. Ainda dá tempo de se formar em engenharia… Depois a gente vai conversar sobre aquele comercial da palha de aço. Você não vai botar aquele magricela pra anunciar aquilo, né!? Tem que ser o Cuoco ou o Leão, sabe, aquele goleiro do Santos!? Aquilo ia fazer sucesso com a mulherada e ia vender que é uma maravilha. Com esse magrinho meio careca sei não, se eu fosse o cliente não deixava você fazer isso não. Pensa bem, amor, ainda dá pra ser engenheiro. Esse negócio de propagana, Washington, acho que não é pra você…
Só que a mãe natureza, em sua infinita sabedoria, depois de pensar em uma maneira pros porcos-espinhos se procriarem e de inventar a pornografia online grátis, nos muniu de algo que é vital pra nossa sobrevivência: o Ego de publicitário. Maiúsculo. Se for publicitário atedimento (?) é com minúscula. Mas o nosso é com maiúscula mesmo. Então essa é a manha. a gente mostra o que a gente faz pra todo mundo e faz uma amostragem: pega os votos de quem achou muito bom, soma com os dos que acharam genial, e ignora por falta de critério os que não acharam bons, afinal, pra não achar bom uma coisa que a gente fez o sujeito deve ser meio burro, e a gente não quer esse tipo de gente dando pitaco nos nossos trabalhos. E assim vamos vivendo e sobrevivendo em meio à essa savana africana que é o mundo da propaganda. O pior é que ao contrário do futebol, a gente ainda periga topar com um vEadinho ator de teatro infantil, alguma gazela bailarina ou um delicada, educada e saltitante girafinha webdesigner nessa selva… Realmente é muito mais duro ser publicitário do que tecnico de futebol…



8 comments
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Junho 5, 2008 às 3:02 pm
Marcel Maineri
que são os atores de teatro infantil, os webdesigners, os professores de literatura e os bailarinos homens(?).
eusahuesahuaes
muito bom leandro!
Belo texto cara, e isso é mais que verdade, todo mundo se acha um pouco publicitário. E todos dão pitacos..
só acho que tu se confundiu nos números lá em cima, as vezes ta 190, outra 170..
Abraço cara, e manda mais textos de publicidade que são ducaralho
Junho 5, 2008 às 6:48 pm
Alice Désirée
Nossa! Não dou um de crítica não, falo o q eu gosto e o q n gosto mas acho q não é da conta de mais ninguém..Afinal, de pessoa pra pessoa a opinião muda, né? Ah! Eu não gosto do Rubens Ewald Filho, acho ele metido à sabichão..rsrs..
Tô com blog novo e gostaria q vc fosse lá!!
Bjs!!
=1
Junho 8, 2008 às 5:33 am
Dany
eu não sou mto boa de publicidade, então admiro bste trabalhos que vejo na tv. Claro, tem uns que são intragáveis, aí sim eu dou pitaco, mas algumas propagandas realmente merecem prêmios, que a gente fique em pé de frente pra tv e bata palmas pro sujeito que teve uma criatividade daquelas. Futebol, a criatividade fica por conta do jogador, não dos técnicos, então por isso qquer um pode se meter a ser técnico, já que de jogar bola não entendem nada. Deve ser mais ou menos o que acontece na publicidade: muitos podem se meter a dar palpitas, mas chegar e fazer acontecer, é completamente diferente!!
Abraços
Junho 9, 2008 às 8:54 am
Gabi
Eu acho que o grande público entende de publicidade sim… afinal, se as peças são feitas pra ele, quem mais pra dizer se gostou, se entendeu ou se acha que há algo que precise mudar?
Acredito que todo profissional deva ter um Ego com “E” maiúsculo, principalmente porque vivemos num país em que infelizmente a grande maioria das profissões não são nem um pouquinho valorizadas. Mas nós, enquanto profissionais de Comunicação, temos que ter a humildade de saber ouvir o que nossos públicos estão nos dizendo, afinal é pra eles que trabalhamos e criamos.
Não é?
Junho 9, 2008 às 4:58 pm
Ian Guimarães
Totalmente excelente!
Abraços
Junho 17, 2008 às 11:39 pm
Stanley
Pra variar, mais um excelente texto. Bem escrito e divertido. No entanto, acredito, como já disse Gabi acima, muitos de nós temos mais bom senso em relação a determinados publicitários. Veja por exemplo o comercial do guaraná Dolly. Não é preciso ter muito discernimento para ter a convicção de que se trata de um péssimo comercial. E como.
Dê uma passada no meu blogue:
http://www.antologiaracional.com/
Abração.
Junho 23, 2008 às 1:23 pm
Susi
Só um comentário de uma ex-aspirante a publicitária: essa classe pensa que é artista (não que não seja), mas só faz arte pro mercado, é um tipo de arte que tem barreiras. Ex: o famoso tio da Sukita, foi até premiado, mas a marca perdeu share… ou seja, pra q falar com tanto despreso nesse coração sobre leigos q não entendem nada de arte, mas acatam msgs publicitárias e vão t dar retorno financeiro?
Julho 4, 2008 às 10:31 am
Cintia Brunelli
“pega os votos de quem achou muito bom, soma com os dos que acharam genial, e ignora por falta de critério os que não acharam bons, afinal, pra não achar bom uma coisa que a gente fez o sujeito deve ser meio burro, e a gente não quer esse tipo de gente dando pitaco nos nossos trabalhos”…. HUAUAHUAHAUAU, excelente!
Aquele comercial do 1º sutiã é um clássico, mas provavelmente teve gente dizendo que era uma merda, bem como vc falou. Aliás, eu também mostrei esse comercial ao meu ex, que disse: “Tá, que que esse comercial tem demais? Achei nada a ver, mto sem graça!”
Tem que ter feeling. Porque nem sempre o consumidor diz o que ele realmente quer. Muitas vezes ele nem sequer sabe claramente o que ele quer.