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Há algum tempo, escrevi um texto sobre “top 10 filmes de macho!” para um site no qual sou colunista. Bom, esse texto sobre as listas foi um sucesso. Principalmente entre os leitores mais modernos, que pediram Casablanca e Brad Pitt entre os dez mais. Centenas de mensagens entupiram nossas caixas de emails, de bibas nos agradecendo pelo bem que estou fazendo à sua causa. Dizem que estou ajudando o mundo a ser menos preconceituoso e mais receptivo(!).
Havia um projeto de construir estátuas dos membros desse site em San Francisco, de mármore de carrara. Não só dos membros, mas do corpo todo. Porém, em virtude da imensa quantidade de matéria prima que seria necessária para a elaboração do membro deste membro que vos fala, tal homenagem teve que ser abortada. Agora cada um de nós vai ter seu nome emprestado à um carro alegórico do Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeiro Eu na Mangueira, de Pelotas. Muito justa homenagem. Por isso vou lançar aqui uma campanha.
Acompanhem: há um tempo atrás teve uma grande discussão a respeito do milico da novela das oito , personagem do Edson Celulari, que ia assumir, diziam as más línguas, sua boiolagem. Teríamos então um homossexual-bissexual-transexual-gay-boiola-aviadado no horário nobre. Os milicos rodaram a baiana, e tanto reclamaram que a Globo deixou o sujeito enrustido mesmo. Pergunto: e daí!? Não entendo o porquê de tanto barulho. Tem veado em tudo que é lugar. Menos, claro, neste site. Pode ter gente querendo ver a mulher com outro, leitor reclamando o Brad Pitt na lista dos 10 mais filmes pra macho, mas veado não.
E se a globo fizesse um publicitário veado? Será que o Olivetto ia dar chiliques por aí? Ou se fosse um estilista veado, será que o Clodovil ia se levantar contra esta infâmia? Então, em mais um serviço de utilidade privada deste ilustríssimo site, lançamos a campanha “Tire um amigo veado do armário”. Seguinte: se você é médico, estudante, estivador ou faz parte de algum clube de leitura de poesias sábado de noite, descubra alguém veado entre seus pares e cagoete ele! Vamos lá! Vamos mostrar à sociedade que veado, barata, rato e eleitor do Lula tem em tudo que é lugar, só que eles não aparecem muito. Não tenha medo. Sabe aquele seu amigo marombeiro que malha com você e tem um pôster do Vin Diesel no quarto dele, e quando vocês vão juntos ao banheiro fica te olhando de rabo de olho por que “Pô, seu bíceps tá maneiro!”? Então, cagoete essa bicha louca!

Aquele cara do seu trabalho que gosta de moda, usa blusinha curtinha e apertada e dá tchau só com os dedinhos. É ele mesmo! Puxe ele do armário e faça-o se revelar. Devemos isso à sociedade. Não tenha medo! Eles não podem continuar anônimos e sujeitos ao preconceito geral, irrestrito e segregacionista. Puxe um amigo veado do armário e lhe faça mostrar a cara. Mas puxa com jeitinho, vai que ele gosta da sua pegada e resolve cagoetar você também.
Dica pra diagnosticar a boneca: se você ta andando na rua, mostre uma gostosa pro seu camarada e diga “nossa!!”. Se ele olhar por cima dos óculos escuros com as sobrancelhas suspensas fizer biquinho de francês, e disser algo como “Nossa! Por favor alguém avisa pra ela que a última vez que eu vi mini-saia com bota branca foi em ´Blade Runeer`. Muuuito anos oitenta”. Batata, entregue a bicharoca. Mas se você já é veado, fica na sua. Não cagoete ninguém, por que vai parecer intriga da oposição. A não ser que você seja metrosexual. Aí, conte pra nós alguma biba entre vocês. Isso vai ser um marco para o fim do preconceito com os que dizem que todo metrosexual é machão e tem que coçar o saco por aí. Mostre que vocês, metrosexuais, também podem coçar os sacos alheios, por mais que ninguém nunca tenha desconfiado disso.
Há dez anos eu tinha uns cinco graus a menos de miopia, uns cinco centímetros a menos (de altura, pessoal, de altura…), dois brincos e uns três anéis a mais. Há uns dez anos, eu achava que hoje, dez anos depois, eu teria mais barba, um carro, uma casa, esposa e filhos, e minha conta bancária teria pelo menos mais uns quatro dígitos do que tem hoje. Dá pra perceber que nada disso aconteceu ainda. Não tenho pressa, mas há dez anos achava que meus 27 anos seriam meu ápice, e não a minha entrada de verdade no mercado no qual pretendo morrer trabalhando.
Há dez anos eu entrava na faculdade de direito querendo mudar o mundo. E eu não queria mudar pouco não: na época eu já falava inglês, fiz espanhol e francês, e queria a área de direito internacional. Praticamente um Carl Marx com Rui Barbosa. Porém, eu vi que o buraco era mais embaixo. Me desiludi com o direito e parti pra única coisa que eu sei fazer na vida, quer dizer, a única coisa que as pessoas pagariam pra eu fazer. Quer dizer… Esquece. Então, eu fui fazer publicidade.
Há dez anos eu era turrão, mais medito do que eu já sou, se é que isso é possível, e sem motivo. Por que se hoje eu acho que escrevo pra caralho razoavelmente bem, é pelos anos de prática e pela opinião das pessoas, tanto as negativas quanto as positivas. E não tenho esse falso orgulho terceiro mundista de “não me arrependo de nada, mesmo sendo drogado, alcoólatra, homossexual, judeu, flamenguista e estar devendo trinta mil pruns agiotas”. Eu me arrependo sim, fiz muita besteira, não teria feito de novo, ou teria feito as coisas de maneira diferente.
Queria eu, há dez anos atrás, ter próximo de mim alguém que, ao invés de dizer “ô imbecil, faz assim por que é assim que se faz”, dissesse “olha, eu fiz assim e me fodi, se quiser fazer, vá em frente, mas se não quiser, vem aqui que eu te ajudo”. Eu não tive, só tive gente achando que “esse moleque arrogante merece mesmo se foder”. Não to falando de adultos da idade dos meus pais na época, desses eu tive boa ajuda. Mas falo de gente pouco mais velha, que há apenas dez anos, estava passando por aquilo. Alguém que chegasse e me falasse, peremptoriamente (e que me ensinasse o que significa peremptoriamente) “Bicho, se você fizer uma faculdade só pra agradar seus pais, você vai ser infeliz, e vai fazer sua mulher e seus filhos infelizes, e vai chegar no trabalho todo dia doido pra ir embora, e a grana que você ganhar, você vai gastar toda pra se sentir menos infeliz. Mas se você fizer o que gosta, seja escrever, dançar ou se candidatar a Senador, você vai ser feliz. Pode ate ser duro, mas vai ser feliz e vai fazer as pessoas felizes”. E geralmente a gente só encontra gente dizendo “o que? Publicidade? Ta fudido! Vai estudar, fazer direito, porra! Ou quer passar a vida toda de All Star e cabelo despenteado?”.
Pois é, eu sou duro, uso All Star e não penteio o cabelo. Sou muito mais duro do que me imaginava há dez anos. Mas com certeza, muito mais feliz.
Você já falava inglês quando ela nasceu. Você ouve jazz, blues, rock e bossa, e ela cantarola uns pagodinhos, adora o Eminem e curte o tum-ti-tum-ti-tum das raves. Você vai para barzinho, musiquinha ao vivo e amigos tocando um violão. Pra ela, nenhum lugar com menos de cinco mil decibéis é suficientemente bom. Você fala inglês, espanhol e francês, está fazendo mestrado e pensa em fazer uma segunda faculdade. Ela, cursinho pré-vestibular e curso de inglês. Numa roda de amigos, você fala de música, política e arte. Ela pergunta logo o que aconteceu no capítulo de ontem da novela das oito. Quando você a apresenta pra sua mãe, ouve logo: “mas meu filho, você está namorando uma coleguinha do seu irmão?”. O pessoal do trabalho vive te sacaneando, perguntando se você recita músicas da Ivete pra ela. Você lê Tolstoi, Dickens, Proust, Kafka… Ela tem todos os livros do Paulo Coelho, assina a Caras e não perde um livro do tipo “Fulana F. : drogada, prostituída, fodida e vendendo milhões de livros”. Você se preocupa com os prazos do cliente e com o dinheiro que ainda não caiu na sua conta, e ela só pensa na prova de química. Quando você chega na casa dela pra sair, a mãe dela te olha como se estivesse deixando a filha passar um fim de semana com o Michael Jackson em Neverland. Mas você nunca tinha parado pra pensar nisso. E nada disso faz a menor diferença quando ela te olha com aquele olhar de gatinho em pet shop, diz que está cansada e se aninha no seu peito, fechando os olhinhos, suspirando e pedindo cafuné. Nada disso importa…
Você não é a mulher da minha vida. Pelo menos, ainda não. Você não foi meu primeiro amor, nem minha primeira namorada, muito menos minha primeira mulher. Não foi amor a primeira vista nem uma paixão que me arrebatou logo de cara. Não estamos juntos por amigos em comum, afinidades de qualquer grau ou por força do destino. Nada místico, nada mágico, nada “sobe trilha com névoa ao fundo e viveram felizes para sempre”. Foi aos poucos. E, também aos poucos, uma menina que não gostava muito de ler, passou a ser a minha leitora número um. E essa leitura fiel, somada a um contato diário via internet foram fazendo isso tudo começar.
Aos poucos você me conquistou como ninguém fez, repito, aos poucos. Paixões arrebatadoras não nos deixam escolha. Não precisam de motivo nem causa. Com você foi aos poucos. E não vou mentir, você tem uma coisa que mulher nenhuma teve: apesar da admiração que você tem por mim – que não cabe aqui discutir se mereço ou não, apesar de achar que não – apesar disso, você me aceita com todos os defeitos de uma maneira que me dá até medo. Chato, brigão, ciumento, cínico, debochado, transbordando humor negro e sarcasmo… Mesmo não sendo nada disso com você, tirando o ciumento… Não é questão de aceitar cegamente, como muita gente faz. A questão é que você entende que ninguém é perfeito, nem você, eu muito menos, e aceita isso. Não fica posando de superior, me corrigindo o tempo todo ou me recriminando. Você reclama quanto tem que reclamar, e fala quando tem que falar, mas sem me achar um estuprador que acabou de sair da cadeia, como várias pessoas fazem…
Queria que as coisas fossem um pouco mais fáceis, você e alguns de vocês sabem do que eu to falando. Queria poder participar mais do seu dia a dia, do seu crescimento constante e dessa fase difícil da sua vida, de escolha profissional e tal. Queria eu ter alguém pra me ajudar, as coisas teriam sido em mais fáceis. E você me escuta quando eu falo sobre coisas que eu já passei, porque você sabe que não falo por mal, falo pra você pegar os atalhos que eu poderia ter pegado e ninguém me mostrou. Com dez anos a menos, você uma maturidade que eu não vou ter em cinquenta anos, e que poucas mulheres com quem já me envolvi tiveram. No sentido de ouvir, de prestar atenção, coisa que eu nunca tive. Sempre me fodi, com muito orgulho, inclusive. Você faz hoje, o que eu aprendi a fazer depois de anos me fodendo. “Só um idiota aprende com os próprios erros. Um sábio aprende com os erros dos outros”. E você ta aprendendo com os meus, que não foram poucos, diga-se de passagem.
É isso. Aos poucos, bailarina, você me trata e gosta de mim de uma maneira que eu achei que só existisse em filme. Sem desespero, sem morrer por isso. Só gostando, admirando e cuidando. E pode ter certeza, bailarina, é mútuo.
Texto velho, mas mais atual do que nunca…
“Um sujeito parado, sozinho, numa esquina, numa noite de chuva e com aspecto feliz. Ou é maluco, ou está apaixonado”. Não me lembro bem de quem é essa frase, mas é sem dúvida uma dessas verdades absolutas, assim como o hidrogênio e a burrice. É, essa frase também não é minha… Originalidade é a arte de saber esconder as fontes, minha senhora. Como? Não,essa também não é minha. Mas vamos ao que interessa, o assunto da frase inicial. O que as pessoas mudam quando estão apaixonadas é uma grandeza! Nego fica simpático, bem humorado, mais calmo, anda na rua rindo sozinho, e tem até quem fique inteligente e passe a gostar de pagode e axé…
Qualquer coisa é motivo pra ficar feliz: se tá sol e de repente começa a chover, e você tá de camisa branca, pasta cheia de papel e sem guarda chuva, você logo levanta a cabeça, olha pro horizonte e fica pensando em o quanto a natureza é bela e imprevisível. Há uma semana atrás você ia estar mandando a natureza pra puta que pariu, por que sempre chove quando você tá sem guarda chuva. Passa um carro em cima de uma poça e te ensopa todo, e você, ao invés de procurar uma pedra e arrebentar o vidro do desgraçado, suspira, sorri e sai chutando a água, se achando o próprio Gene Kelly… No dia anterior você foi dormir às cinco da madrugada trabalhando, e agora, às oito da manhã, toca o diabo do telefone e, ao invés de quebrar o maldito aparelho, arrebentar a tomada e mandar o infeliz pros quintos dos infernos, você atende o sujeito que quer te vender enciclopédia às oito da manhã como se fosse seu amigo de infância, e quando ele lhe dá bom dia, você – que em sã consciência ia fingir que vai comprar o curso só pra encontrar com ele e quebrar a cara dele -, responde prontamente: “É, está um ótimo dia! Não poderia estar melhor!”, compra uma coleção de enciclopédias e ainda indica mais dez amigos que estariam interessadíssimos em comprar enciclopédia às oito da manhã de um sábado de sol. E ainda lhe deseja muito boa sorte e que ele tenha um ótimo dia. E não que ele morra de hemorróidas.
Você não liga pra pisão no pé, empurrão no ônibus nem gente furando fila. Afinal, a vida é tão boa pra ficar se preocupando com essas banalidades… Você senta no ônibus e começa a cantarolar sozinho, sorrindo e batucando no banco da frente. Você escuta uma música numa boate, e se une ao coro dos que cantam com os dedinhos levantados e olhos fechados. Nada te aborrece. Hora extra, vizinho barulhento, a Telemar, nada! Nada consegue te tirar do sério. Você não liga nem pruns malucos chatos e pretensos escritores que ficam enchendo seu saco no seu blogue, fazendo textos tão engraçados quanto dor de dente, tão inteligentes quando redação de “o que você fez nas férias” de curso de inglês de adolescente, e tão empolgantes e interessantes quanto itinerário de elevador. Nem isso te irrita. Nada te irrita. Você é o próprio Dalai Lama. Bom, quase nada. À não ser quando você liga, liga, liga e ela não atende. Aí você levanta, dá um soco no computador, um bico na mesinha de centro, taca uma pedra no pára-brisa do corno que te molhou, mete a porrada no desgraçado que tá querendo furar fila e liga pro palhaço que te ligou às oito da manhã, manda ela pra casa do caralho, e entra nos blogues pra rir dos textos ridículos daquelas bichas enrustidas só pra exercitar seu sadismo. Mas fora, isso, nada, mas nada mesmo, consegue tirar seu bom humor…


